sábado, 24 de novembro de 2012

A conversa

- Eu não aguento mais isso.
- O quê?
- Isso!
- O filme? Mas você falou que queria ver esse.
- Não. Droga. Não é o filme.
- Tá ruim assim? Vem, encosta aqui. 
- Não. Olha pra mim.
- Hmm.
- Olha.
- Tô olhando. 
- Isso não tá certo.
- O filme?
- Eu vou dar na sua cara.
- Desculpa. Não aguentei. Vai, pode falar.
- É...isso. A gente. Aqui.
- Você quer ir mais pra lá?
- Puta que pariu! Não é ir mais pra lá ou mais pra cá! É ficar aqui, com você, nesse sofá, nesse apartamento, vendo filme no final de semana, pedindo comida japonesa, chinesa, pedindo pizza, tomando vinho...
- Você não gostou do vinho?
- Eu adorei o vinho! Você sabe que eu adoro vinho. 
- Sei, claro que sei.
- Você sabe tudo sobre mim.
- Sei...
- Claro que sabe. Porque a gente se conhece a vida inteira!
- Ai...de novo isso?
- Não olha assim. De novo, sim.
- A gente já conversou sobre isso.
- Conversou. E conversou muitas vezes. Mas eu andei pensando.
- A gente já tentou...você sabe disso.
- Eu tô com saudade de ficar junto. Saudade da gente.
- Ah...ah, não. Sério. A gente não deu certo casado.
- Não é assim. A gente era muito novo na época.
- Ah, sim. E só isso foi o motivo, né?
- ...
- Olha. De verdade. Eu te perdoei. Você sabe que eu te perdoei. A gente não estaria aqui agora se não tivesse perdoado.
- Eu sei. Eu sei. Errei. Tá bom. Não precisa me lembrar disso. Mas é diferente agora.
- Não tá bom assim, a gente sendo amigo?
- Olha...tá bom, tá muito bom. Mas não tá ótimo.
- Hmm.
- E a gente era ótimo junto, você sabe.
- Era...mas tá tudo ótimo agora. 
- Eu te amo.
- O quê?
- Eu te amo. Eu te amo. Não deixei de amar nunca.
- Mas a gente é amigo...
- A gente é amigo, sim. A gente sempre foi amigo. Mas a gente não é só isso. Tem uns dois anos que a gente não é só amigo.
- Ai...
- Te amo e não existe razão pra gente não ficar junto.
- Olha...
- Fala. Fala, quero te ouvir.
- Não é bem assim.
- O quê?
- Não é bem assim de não ter razão pra gente não ficar junto.
- Como assim? É outra pessoa?
- Não, não é outra pessoa. É você.
- O que tem eu?
- Eu lembro que você tem aquela mania de dormir de janela aberta.
- Hahahahah!
- É sério!
- Não...heheheh. Eu sei que é sério. Por isso que tô rindo. Se é só isso, eu paro agora!
- Não.
- Não?
- Também tem o lance da pasta de dente.
- O quê? De apertar em cima?
- É.
- Nunca mais. Por você.
- Olha...
- Palavra de honra. Pode confiar.
- Ah...e a sua camisa.
- Camisa?
- A xadrez, de flanela.
- Não...ela também?
- Você tem essa camisa há mais de dez anos, já. Não dá pra sair na rua com ela.
- Ah.
- Todo mundo já te viu com ela. Aliás, lembra quantas fotos a gente tinha na mesinha em que você tava com ela?
- Não...tá, tudo bem. Eu jogo fora. 
- Mesmo?
- Mesmo. Mas...
- O quê?
- Você tem que me prometer nunca mais cuspir caroço de azeitona.
- Caroço?
- É. Pega um guardanapo, põe na frente da boca e cospe fora. Assim, não direto no prato.
- Ai, ai.
- Isso é muito sério. Ou coloca com jeitinho no garfo.
- Isso é nojento. Frescura.
- Guardanapo, então. Quero nem saber.
- Tá bom, tá bom.
- Ah! E os copos!
- Que que tem os copos?
- Tem que colocar um descansinho embaixo. A gente tinha um monte de mesa manchada lá em casa.
- Ok. Mas eu quero ter gato de novo.
- Gato de novo?
- Gatos. Dois, pelo menos. 
- Mas a minha alergia...
- Tem remédio. Minha prima tá tomando um agora. Você lembra que ela nunca podia ficar perto do Zorro? Agora ela mexe e brinca sem problema.
- Tá bom. Um gato.
- Dois.
- Dois...ok. Dois gatos. Pra arranharem tudo e soltarem pelos por todo lado.
- Vai ser lindo.
- Mas, ó, chega daqueles quadros arredondados.
- Você não gostava deles?
- As fotos ficam parecendo aquelas de cemitério. 
- Ah, que absurdo!
- Nossa, parecia que todos os nossos parentes tinham morrido e a gente era um daqueles casais estranhos que aparecem nos documentários.
- Ah, muito bem lembrado! Você tem que jurar aqui, de pés juntos, que a gente não vai passar mais um domingo vendo documentário na tevê.
- Por que não?
- Pô, fim de domingo é depressivo por natureza. Aí você tem de escolher entre o Faustão e documentário do primeiro dirigível da história.
- Mas você não gosta de aprender coisas novas?
- No domingo não. Eu só queria desligar meu cérebro. Você não faz ideia de quantas vezes pensei em me enforcar com a cortina da sala.
- Exagero.
- Exagero, não. Sinceramente pensei. Tá, foi só uma vez. Mas tanta coisa melhor pra fazer. Trepar, por exemplo.
- Você sabe que não gosto quando fala assim.
- Trepar, transar, foder. Tudo a mesma coisa.
- Não gosto.
- E isso vai ser uma condição.
- Vai. De agora em diante, nada de trepar.
- Mas daí qual o sentido da gente voltar?
- Parar de rir que você entendeu.
- Ah, você tem que admitir que isso é muito engraçado.
- Promete. 
- Tá certo. Prometido. Nada de trepar. Mas nada de fazer amor também.
- Oi?
- Isso, essa expressão. Muito brega.
- Sempre achei que você gostasse.
- Gosto do ato em si, claro. Que tem todos aqueles nomes: foder, transar, comer, trepar.
- Esse não.
- Tudo bem, mas fazer amor também não.
- Tá. 
- Tá. Algo mais?
- Nada de cabelo no ralo.
- Nem barba na pia.
- Feito.
- Feito. 
- É?
- É. Eu também te amo. A gente não estaria aqui se eu não amasse.
- Ah...então me dá um beijo aqui. 
- Dou. Mas peraí.
- O quê?
- Aquele seu monte de livro e gibi tem que ir embora. 
- Sai agora mesmo da minha casa.