segunda-feira, 26 de novembro de 2012

a leitura. a escrita. a entrega. o jovem.

neste mês, comprimida por um prazo, escrevi um texto durante seis noites. um artigo sobre milton hatoum para uma revista acadêmica. dormia das 7h da manhã ao meio dia - e depois emendava noite adentro. parece tarefa obrigatória. e é mesmo. nem por isso deixei de sentir um enorme prazer. daquele prazer raro que só um encontro consigo mesma pode causar. o que seria isto? por que se submeter ao, que, no fundo, traz uma solidão atroz? eu, a escrita, a dificuldade da escrita? uma das respostas talvez resida na facilidade de adentrar na solidão.ou um amor aos livros. um amor à escrita. ou simplesmente um deslumbre. permitir-me o deslumbre. ou a dificuldade. 

os livros não são apenas objetos. agora, podem mesmo não ser objetos. são uma coisa viva. exigem a entrega. como um dom. por isso, não consigo mais entender como os jovens cada vez mais decidem ficar horas e horas manejando o celular, atrás de outras pessoas igualmente desesperadas por companhia, e não se permitem um tempo mínimo para a leitura. já entendi mais. agora não. não adianta me dizerem que nunca se leu tanto. não acredito mais nisso. e se não acredito é porque perdi um pouco da admiração pelos jovens. já os achei mais cativantes, mais instigantes. agora, de cabeça baixa para uma uma presença sempre ausente, numa luzinha azul, perderam um bocado dos seus sonhos, da sua rebeldia, da inquietação, que eram justamente o que me fascinava.perderam o poder de argumentar. de encantar. 

não digo que um leitor tenha estes poderes. mas sem dúvida possuem algo a mais. ailleurs. lembro da minha própria juventude, muito precária em quase tudo. mas havia em mim um poder enorme. eu me sabia leitora. eu vivia num mundo de muitas histórias. de muitas vidas. e isso repercutia em todo o resto. até mesmo no amor pelos outros que eu sentia então. eu QUERIA ser um pouco como  aquelas "pessoas" - complexa, intensa, inteira, capaz de gestos monumentais e contraditórios. e hoje, o que os jovens querem ser, o que querem fazer? tenho medo da resposta. 
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