quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Meu Carnaval, na Europa.

Esse ano o carnaval veio cedo. Droga, deixou meu texto quase anacrônico. Mas tudo bem, antes tarde do que mais tarde.

Não gosto de carnaval. Nunca gostei. Antes da internet (sim, vivi na era anterior ao www e por isso gosto de escrever mais que um tweet) achava que eu era um em um bilhão, mas com as redes sociais reparei que tem mais um punhadinho de gente que me entende. Aliás, acho até que o problema é esse. Não é que eu não goste de carnaval, somente não entendo.

Nunca entendi qual a graça de em pleno fevereiro, ápice do calor infernal, digo, tropical, juntar um monte de gente em um lugar e pular ao som das piores músicas. Agora a desculpa mais comum é dizer que não gosta da música, mas é só para animar. Fico pensando na tristeza de uma sociedade que domina a música há milênios, mas não conseguiu compor um setlist que seja bom e ao mesmo tempo anime, mas tudo bem.

Houve um ano que foi ainda pior. Trabalhei todos os dias, do sábado de carnaval à quarta-feira de cinzas, sem ganhar um centavo de hora extra, já que a data não é um feriado, mas ponto facultativo, e onde eu trabalhava mais-valia pouca era bobagem.

Há uns dois anos eu me cansei. Depois de quase três décadas reclamando anualmente do carnaval, logo eu que, como puderam notar nos parágrafos acima, nem gosto de reclamar, achei melhor aproveitar o feriado e passar uma semana na Europa, me livrar do calor e das músicas ruins, quer dizer, das músicas para animar (animar a quem, cara pálida?).

Uma semana antes já comecei os preparativos, fui até a biblioteca da faculdade, que com todo o mérito leva o nome de Florestan Fernandes, e peguei minha passagem. Tratava-se do livro “As benevolentes”, de Jonathan Littell, que descreve em cerca de 900 páginas o cotidiano de um oficial da SS durante a Segunda Guerra. É difícil ter que lembrar a cada página que a obra é uma ficção. Ainda tenho minhas dúvidas!

A meta era me familiarizar com o livro em alguns dias, ler tudo em uma semana de folga e sair do quarto de volta ao normal.

Como toda viagem tem problemas, quando fui renovar o empréstimo na sexta-feira de carnaval, para de fato passar a semana com o livro, alguém tinha feito reserva. Evidentemente alguém que também não gosta de carnaval e também quis fazer a mesma viagem para a Europa.

Pois bem, o jeito foi mentir para o atendente da biblioteca que eu iria até em casa pegar o livro, assumir o atraso de mais de uma semana e nem pensar no tempo que ficaria impedido de pegar livros depois disso. (se você, que reservou o livro aquele ano, está lendo isso, minhas sinceras desculpas!).

Valeu a pena. As benevolentes é uma leitura obrigatória. Complementa uma centena de aulas de história, geografia, sociologia, filosofia, literatura, etc. O tipo de livro que conforme a leitura avança você diminui o ritmo, na esperança de que ele não termine nunca. Mas termina. Assim como o carnaval, restam as cinzas.

Minha meta foi meio frustrada. Li o livro na semana de folga e retornei ao Brasil ao sair do quarto, mas nunca mais voltei ao normal.