sábado, 27 de abril de 2013

Qual é o segredo


(Ter um lugar no mundo pede responsabilidade. Só posso, então, iniciar com um pedido de desculpas. E de licença para ocupar o dia 27, quando deveria ser dia 26, antes que Luana aqui chegue. Já faz meses que não apareço por aqui. A palavra não me fugiu, mas o tempo para criar a intimidade com as palavras tem sido cada vez mais escasso. É o que tenho feito com a vida sem saber como estancar este veneno amargo. Qual é o segredo de quem consegue? Consegue o tempo da delicadeza, da reflexão, da ruminação? Já fui boa nisso, mas o agora me testa com sua foice. E tira a responsabilidade que havia em mim para tempos de respiro).


Mas não podemos fazer tantos parênteses ocos na vida. E por isso, persisto. E persistir, para mim, significa estar próxima daqueles que sabem se abstrair, para que eu mesma possa me abstrair. Qual é o segredo?  Bergman, no seu livro autobiográfico, Lanterna mágica, descreve seu primeiro momento ante uma câmera e eu sinto como se as palavras ali estivessem exatas. Foi ali que ele descobriu o que seria. E para seu espanto, nem sempre foi um homem agradável, tão submerso estava na constituição do seu ser. Este assombro percorre toda essa autobiografia ao mesmo tempo amarga e plena.

Não sei se Ana Cristina Cesar, nas cartas que escrevia, sabia que constituía ali uma imagem que depois seria cultuada por cada um de nós que lemos a sua obra – até aquela parte que devia ser íntima, como as cartas enviadas aos amigos. O certo é que a imagem, ali, é de quem carrega em si  algo indefinível – sempre entre a pose e o puro sentimento. O que somos::: o supérfluo que nos alegra (as batas bonitas, a poupança inesperada, os presentes). O que somos::: o medo de ser preterida, as inseguranças com os amores, a vontade de brincar de casinha, a impaciência com o trabalho que não satisfaz.  E ainda que sejamos coincidentes na matéria do ser, ainda somos cada um – um. Ninguém é Ana C. 

E ninguém é Bergman. Mas somos um pouco de todos que passam por nós. Por isso, ainda leio. Ainda que num tempo reduzido, ainda que quase tudo à volta me exija uma posição de eficácia, insisto na possibilidade desse encontro. Porque ler é também um modo de vermos [e querermos nos insurgir contra] a nossa pequenez nos dias que correm.