segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Do vinho pra água


Coloquei o Blackberry pra carregar. Quinze minutos depois ele continuava morto. Resolvi então esperar 2 horas. Nada. E agora? Como eu iria responder aos meus 300 grupos do Whatsapp? E se alguém viesse falar comigo do nada? Hoje em dia, ficar mais de 2 horas sem responder alguém no whatsapp é uma ofensa uma vez que está todo mundo online 24 horas por dia. No dia seguinte eu levei o aparelho ao conserto. A previsão de entrega girava em torno de 10 dias. Comecei então a me mexer pra comprar um Samsung Galaxy ou um Iphone. Afinal, além do Whatsapp, Facebook e Twitter eu ainda teria o Instagram, ferramenta que ainda não havia experimentado e que todos os meus amigos diziam que eu TINHA que ter. Aliás, todos diziam que eu tinha que jogar meu Blackberry no lixo e comprar logo um Iphone, como se eu estivesse andando nu pela rua e que eu deveria vestir um short ou uma calça. E o pior é que eu concordava com eles. Lá pelo quinta dia com um aparelho provisório que só mandava mensagem de texto e fazia e recebia ligações comecei a vislumbrar um caminho oposto para a minha vida. Com um trabalho de meio expediente numa editora de livros de arte e no resto do tempo estudando para concurso, a minha melhora tanto no trabalho como nos estudos foi nítida. Foi um choque de realidade. Ok, o whatsapp é muito legal, você se diverte muito com os comentários dos amigos, mas será que era mesmo útil pra minha vida? Não. Ele me ajudava a estudar e a trabalhar melhor? Definitivamente não. Eu achava que o whatsapp era um bom aliviador para os estudos. Enfim, era pra ser, mas na prática eu ficava muito mais tempo que podia ou deveria. 

O meu comportamento mudou radicalmente. Não vejo mais o meu celular de 2 em 2 minutos. Não tem mais luzinha vermelha piscando freneticamente. O vejo agora de uma em uma hora e olhe lá. Os e-mails pessoais e de trabalho que chegam no meu Blackberry consertado, agora sem Facebook, Twitter e Whatsapp, são prontamente respondidos e não se acumulam mais como antes. Estou presente nas conversas de bar, nos almoços familiares. Hoje estou tirando o Facebook do meu trabalho com a ajuda de um profissional. Tenho certeza que o meu rendimento vai melhorar ainda mais. Mas eu sou uma pessoa extremamente ansiosa e ter Whatsapp e Facebook a um clique é muito tentador. Poucas coisas são mais aterrorizantes que esse maldito "last seen" do Whatsapp. Conversei com muitas pessoas sobre isso e muitas me confessaram que ficam trabalhando no last seen dos amigos para comprovarem que leram e não responderam ainda. O Whatsapp é um convite para a paranoia. Tudo é imeditado e se você não responde imediatamente aos outros você é mal educado, insensível, babaca. 

Sem essas ferramentes no meu celular, eu acabei ligando mais para os meus amigos e vice-versa. O que é algo positivo. Aquela conversa interminável de Whatsapp de horas agora é definida em 2 minutos de conversa ao telefone. A ausência do Whatsapp fez com que eu planejasse melhor a minha vida, pensasse nos livros que vou ler, nos filmes que quero ver, nos programas que quero fazer. Com whatsapp, facebook e cia no celular, eu não tinha momentos pra mim. Todos os momentos livres eram dedicados a ver o que os OUTROS tinham feito, escrito, comentado, curtido. Pra você ter uma ideia, estou há cerca de 40 minutos escrevendo esse texto e nem sei onde está o meu celular. Há um mês atrás, ao escrever esse texto eu teria olhado o celular umas quinze vezes. E pior, em vez de escrever o texto em 40 minutos, levaria pelo menos umas 2 horas.

Se você também é um viciado nessas ferramentas e acha que é impossível viver sem, lhe digo por experiência própria que é plenamente possível.