sábado, 3 de maio de 2014

Meu pé de amora

Minha mãe mandou cortar o pé de amora. Era uma árvore enorme, que ocupava um grande espaço no jardim, agora é um toco morto. E não era qualquer pé de amora. Era o meu pé de amora.  Meu irmão que plantou. A gente colocou uma grade em volta, que era pro Brutus, nossa  cachorro, não estragar.  O Brutus morreu já deve ter uns dez anos, mas o pé estava lá e a grade também. Sobrou a grade.

Minha vontade era perguntar que porra de demente manda cortar uma árvore frutífera? Tinha merda na cabeça, caralho? Mas na bíblia diz que devemos respeitar pai e mãe, e eu tive uma criação católica. Perguntei calmamente, e ela respondeu  com a frieza quase de um psicopata. Pra ela não era nada demais, era só uma árvore fazendo sombra.

Jamais entendi essas pessoas. Eu me lembro bem o dia que a mãe da minha vizinha cortou o pé de Romã.  Lembro que a gente sentava, abria uma fruta e ficava chupando sementinha por sementinha, conversando, jogando conversa fora. Era tão terapêutico. Acho que não é a toa que tem aquele lance da semente de romã na virada do ano, aquilo tem uma parada religiosa forte. E ela cortou como quem tira uma erva daninha da grama. Fazia sujeira, disse. Mães.

Eu quis dizer para  a minha o quanto aquela árvore significava pra mim, que eu sempre me enchi de orgulho pra dizer que eu tinha um pé de amora em casa, pra dizer que o pé estava carregado e quem quisesse podia ir lá comer. Eu me sentia tão da terra, tão do campo. Ainda que passasse a época e eu não comece nenhuma fruta, eu sabia que estava lá, que eu poderia comer quando eu quisesse, e eu adorava isso.

Quis dizer que eu achava lindo quando ela estava carregada e enchia de passarinhos. Uma vez até um tucano!Que cheguei a pensar em um dia me mudar e dar um jeito de tirar a árvore e plantar na outra casa. E  que até uma das poucas músicas que compus na vida era sobre esse pé de amora. Só tinha a música, não tinha letra, mas se chamava Amora Temporã. Mas do que adiantaria?  Ela nunca vai entender, o jardineiro não vai entender. Só eu sei o quanto de mim tinha ali e agora não tem mais.