terça-feira, 22 de julho de 2014

Três notas sobre o descanso

Entendo que dá uma baita preguiça ler um texto tão grande, portanto, compreenderei se você quiser ler apenas uma das três notas
(Autor Desconhecido)

1. "É muito desperdício passar 1/3 de nossas vidas dormindo. Você vai ter muito tempo para dormir depois que morrer"

Definitivamente não consigo concordar com esta frase. Primeiro, porque ela traz uma informação enganosa, já que apenas alguns poucos privilegiados podem dormir 8 horas por dia. O grosso da população mal consegue chegar nas 6 e, quando muito, consegue tirar uma pestana no busão. Segundo, porque dormir nunca foi e está bem longe de ser um desperdício. Dormir é maravilhoso! É uma atividade vital que faz com as horas acordadas (as supostas únicas horas proveitosas do dia) valham a pena e sejam bem desfrutadas. Tenho a impressão que o ser humano esqueceu que antes de ser um indivíduo pós-moderno, usuário de bens tecnológicos que permitem mil e uma maravilhas, ele é um animal, um ser biológico com as mesmas necessidades vitais dos seres humanos que viveram há 1000 anos, sem internet, sem automóvel, sem celular. Os autores de livros de auto-ajuda econômica que pregam que sempre há um tempinho no dia para fazer um curso novo, aprender uma língua nova ou, de repente, conciliar dois empregos que me desculpem, mas precisamos dormir (e comer, e beber, e fazer cocô) como bons animais (supostamente racionais) que somos. Do contrário, não seremos mais pessoas, mas zumbis, mortos-vivos conhecedores de infinitos saberes, mas incapazes de colocá-los em prática, falantes de diversas línguas, mas incapazes de nos comunicar.

2. "Não existe trabalho ruim. O ruim é ter que trabalhar"

Com esta frase eu me simpatizo bem mais. É sabido que não existe vida em sociedade se não existir trabalho. Algumas pessoas precisam produzir bens e outras prestar serviços para que uma sociedade possa existir. As relações de trabalho e os meios de produção já mudaram bastante ao longo da História, mas sempre houve e, provavelmente, sempre haverá a necessidade de trabalho. Entretanto, penso que trabalhamos demais e, o pior, levamos o trabalho muito a sério. Geralmente eu chego a este tipo de conclusão quando estou de férias, como agora. Quando somos consumidos pela rotina laboral, acabamos nos acostumando com aquela vida e achando que não existe outra, mas existe,  e ela está do lado de fora da repartição (e acredite, por mais que você goste do seu trabalho, ele não passa de um contratempo supostamente necessário que te impede de dedicar mais tempo com que realmente importa. Aposto que estou certo!). Mas precisa ser assim? Há muito que desconfio que não. Já trabalhei em instituições públicas e privadas e em ambas eu permanecia 8 horas em minha oficina laboral mais por um fetiche do meu empregador do que por uma necessidade real de minha força de trabalho. As pesquisas de audiência das redes sociais corroboram minha tese ao mostrar que o período de maior acesso é justamente o chamado "horário comercial" e o de menor audiência, vejam que irônico, são os finais de semana. Ora, as pessoas não podiam trabalhar apenas o suficiente? Em tempos de alta tecnologia não vejo sentido algum em trabalhar a mesma quantidade de horas que trabalhávamos em tempos em que não havia banda larga e outras coisas que supostamente aumentariam o tempo livre e o bem estar da população. 

3. "Eureka..."



O ócio nos torna mais criativos. Sim, em geral as boas ideias precisam de um cérebro relaxado e bem disposto para pousar. Os cérebros e corpos fatigados, em geral, só conseguem pensar e fazer o óbvio, o rotineiro, o que qualquer outro cérebro ou corpo fatigado faz. Não é por acaso que empresas respeitadas do mercado publicitário e de tecnologia têm cada vez mais flexibilizado os horários de trabalho, diminuindo a jornada ou, sempre que possível, permitindo que seus funcionários realizem suas atividades de pernas para o ar, no recôndito de seus lares. As empresas antiquadas e contraproducentes, por outro lado, controlam o tempo de seus funcionários com relógios de ponto, catracas e descontos por atraso. Como se a presença física do sujeito fosse mais importante que sua presença plena, de corpo e alma. Estas empresas não terão vida longa. Isso é um desejo e uma previsão.