terça-feira, 28 de outubro de 2014

It's evolution, baby

Reciclando textos de 2008, por falta de tempo (e programação adequada, porque 26-quase-27-anos-nas-costas não significam nada se tu não se lembra das coisas, mesmo que tenha uma agenda com tudo anotado).

Aviso aos navegantes: conto + escrita automática. Dê desconto. Ou não. Call me mad. Não seria novidade mesmo.



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Diário de H. R. - dia 37

- Você fez bem em vir para casa, meu amor, se estava tão cansado.
- There's not a place like home - disse Oliveira.
- Tome outro matezinho, acabou de ser feito.
- Com os olhos fechados parece ainda mais amargo, é uma maravilha. Se você me deixasse dormir um pouco, enquanto lê uma dessas suas revistas.
- Sim, querido - respondeu Gekrepten, secando as lágrimas e procurando "Idílio" por pura obediência, embora se sentisse incapaz de ler o que quer que fosse.
- Gekrepten.
- Sim, amor.
- Não se preocupe com tudo isto, minha velha.
- É claro que não, meu bem. Espere que vou colocar outra compressa fria.
- Dentro de um instante levanto-me e vamos dar um passeio por Almagro. É bem possível que esteja passando algum musical colorido.
- Amanhã, meu amor, agora é melhor que descanse. Você veio com uma cara...
- São coisas da profissão, que posso fazer? Não se preocupe. Escute com o Cem Pesos está cantando, lá embaixo.
- Devem estar trocando sua comida, animalzinho de Deus - disse Gekrepten. - Está agradecendo...
- Agradecendo - repetiu Oliveira. - Agradecer a que o tem engaiolado.
- Os animais não se dão conta.
- Os animais - repetiu Oliveira.

(Jogo da Amarelinha, Cortázar, Capítulo 77)


As horas, horas, horas... But I still have to face the hours, don't I? I mean, the hours after the party, and the hours after that... Minha trilha sonora imaginária de piano continua tocando... a mesma batida.. madness...

O silêncio.

O Diário do Esquecimento continua sendo escrito, e não sei ainda se sou eu quem controla esta mão. Não sei onde o limite da minha consciência se encontra. Está tudo nublado. "São os remédios, coração..."

O piano. pam. pam. pam. pam.

A marcha segue.

Não, não que esteja pirando ou algo assim. É que a batida é a mesma, como as de um relógio, e é uma cronometração dos instantes que se passam, como se fosse um tempo controlado, como se.. como se houvesse um controle do tempo. Convenções. O que pode ser escrito pode ser controlado. Neh, only in your mind, baby. O tempo é escrito. Descrito. Mas não existe. Não é controlável. Like DamnGod. O Amiguinho Imaginário de todas as horas de ignorância ou pânico. Onde acaba a explicação ele começa. Não que negue ou aceite Sua (in)existência, apenas nego Sua prepotência, Seu poder sobre tudo, a habilidade de ser absoluto. 

Sua infinitude não me convence. Não concebo em mim a ideia de infinito. Há o conceito, mas não consigo imaginá-lo. Mesmo que um conceito exista, não há a garantia de sua existência de fato. E se, por mim, eu juro, existisse um Deus tão ridículo a ponto de querer controlar tudo, ter esse poder e, ainda assim, obrigar a partir de votos, as pessoas a Lhe adorarem e cumprirem Suas ordens, como se fosse algo natural e previamente estabelecido num contrato onde não estive presente, mas assinaram por mim, eu juro por Sua existência, se pudesse, Lhe cuspiria na cara.