domingo, 15 de março de 2015

Um carneirinho, dois carneirinhos...


Umas das lembranças mais vívidas que tenho da minha infância são das noites que passava em claro toda véspera de início de ano letivo. Não era nada demais. Eu não odiava ir à escola, nem tão pouco era apaixonada por aquele ambiente que hoje entendo como uma guerra fria mirim. Mas eu não conseguia pregar os olhos. Era capaz apenas de ficar imaginando como seria escrever no caderno intacto, quem seria a nova professora e se eu faria alguma amizade diferente, enquanto torcia para amanhecer logo e ouvir minha mãe levantando para fazer o café, sinal de que eu poderia sair da cama.

Não que dormir tenha sido fácil durante os outros dias do ano. Eu sempre precisei de, no mínimo, meia hora para pegar no sono, independentemente do cansaço. Parece que na hora que vou deitar todo tipo de pensamento aflora e eu simplesmente não consigo me desligar. Sem contar que um dos braços sempre parece estar sobrando. Dormir a tarde também sempre foi ficção científica. A não ser que algo esteja errado. Se deitei a tarde e dormi, de duas uma: ou vai me dar gripe ou eu estou ressaqueada.  Em ambos os casos, é bom ter uma aspirina por perto. 

Quando estava na faculdade, além das vésperas de início das aulas, as noites inteiras de insônia passaram a ser enfrentadas semanalmente, aos domingos. No início desta época, cheguei a consultar um médico que me orientou a não tomar bebidas ricas em cafeina depois das 4 horas da tarde, mas adiantou pouco. Talvez fosse a vinheta do Fantástico ou o finzinho da ressaca (hepática e moral) de alguma das festanças universitárias. Minha mãe costumava dizer que isso era uma angústia nata que acomete quem nasceu na segunda-feira (meu caso e o dela), mas a teoria que mais acredito hoje é a de que as madrugadas de domingo se tornaram as únicas oportunidades nas quais eu não tinha escapatória: ficava só, comigo e com meus pensamentos, sem poder fujir do balanço (quase nunca positivo) periódico da minha vida. Após muita raiva e muitas segundas-feiras de mau humor, aprendi a conviver com as madrugadas de domingo pacificamente, lendo um livro, relendo velhos diários e cartas ou ouvindo música e amenizando tudo ao tomar muito café na manhã seguinte. 

Hoje as insônias dominicais deram trégua e não tenho tido mais noites em claro injustificadas, mas dormir continua sendo um ritual chato e demorado. E eu escrevi tudo isso só para confessar uma coisa: quando vejo alguém dormindo rapidamente, tipo o meu namorado aqui ao meu lado, tenho a maior vontade de bater tampas de panela, estourar balões ou soltar fogos. Sim, eu tenho inveja de quem encosta e dorme. Sério mesmo. Me julguem.