segunda-feira, 22 de junho de 2015

Ptesiofobia

Vai acontecer de novo.

Eu nunca sei porque sempre caio nessas. É sempre na base da empolgação que eu acabo aceitando viajar de avião. Eu sempre penso nas coisas boas que vou ver durante a viagem, mas esqueço que o meio de transporte mais sensato para viagens de longa distância (sobretudo quando não se tem tempo) costumam ter o péssimo hábito de viajar há 11.000 metros do chão. Onze. Mil. Metros. Considerando que não tenho asas e minha aerodinâmica mal me permite saltar 1 metro pra frente, não considero 11.000 metros uma altura adequadamente segura. 

Não é de Deus voar. Sempre que subo aquela escadinha e entro em um avião eu me cago de medo vejo o cinismo estampado no rosto de cada membro da tribulação tripulação. "Huahuahua... você está em nossas mãos!" é o que na verdade eles querem dizer quando nos dão "Bom dia e obrigado por voar conosco". São uns sádicos. E quando já estamos todos presos, de portas fechadas, cintos afivelados e sem mais possibilidade de fuga, eles começam uma pequena sessão de tortura, que costumeiramente chamam de "Orientações de Segurança", que nada mais é que um lembrete de que aquele avião pode perfeitamente cair a qualquer momento e que aquela poltroninha apertada em que você está sentado pode lhe servir de bote se o avião der a sorte de cair na água. Coisas muito adequadas e reconfortantes para se pensar quando se está prestes a decolar.

Simplesmente não consigo fazer nada nos 10, 15 minutos iniciais de voo, só consigo ficar respirando bem fundo e pensar em tudo o que foi minha vida até ali. Enquanto o avião não decide o que quer (se quer ir pra direita, se quer ir pra esquerda, se quer cair) eu fico lá, prestando atenção em cada barulhinho diferente e segurando fixamente no banco da frente (claro, como se o fato de eu estar me segurando fosse me salvar de alguma coisa no caso de um treco daquele tamanho cair). Só me "tranquilizo" quando vejo as aeromoças passando com o carrinho de comida. "Se elas são capazes de andar, empurrar um carrinho e sorrir é porque deve estar tudo minimamente sob controle".

Lembro que em minha primeira viagem de avião tudo isso aconteceu de uma maneira muito mais intensa do que agora (que cometo esse tipo de loucura com mais assiduidade). Desde o primeiro minuto de viagem ouvia um barulho nada bom, algo como um motor enguiçando ou uma turbina sendo invadida por pombos. Era um barulho que ia e vinha de tempos em tempos e durava uma fração de segundo. Minha companheira dizia que era pra eu relaxar, que não devia ser nada grave. Eu olhava pros lados e via todos calmos, alguns até dormindo tranquilamente (odeio as pessoas que conseguem dormir numa situação tensa dessas... eu só dormiria se entrasse em coma). Somente no fim da viagem que eu consegui identificar a fonte do barulho terrível: era o passageiro da frente folheando o jornal.

Só sei que mês que vem vai acontecer de novo. Três dias de caganeira prévia, a tortura das orientações de segurança, os barulhos horripilantes, as reflexões sobre o sentido da vida e a entrega total do controle de minha vida para o sujeito sorridente que me receberá com um cínico "Bom dia e obrigado por voar conosco".

Ah, e quando o avião finalmente pousa e você pensa que o jogo está ganho, você se dá conta do óbvio: ainda tem a viagem de volta...

...

Bom, até o próximo dia 22 (se nada der errado no dia 21)