sábado, 27 de junho de 2015

Decrescer



Minha tia está sob a linha que separa a vida da morte. Da última vez que a vi, a coisa só foi piorando. De quando em quando, fecho os olhos e me vêm a imagem do rosto magérrimo, sobretudo dos olhos dela. Talvez porque eu tivesse olhado fixamente para eles, a fim de descobrir a essência perdida naquele corpo supliciado pela doença. Nunca imaginei ver uma pessoa tão magra e desfigurada! 

A esperança de cura e sobrevivência morrem a cada dia que passa. O câncer se espalhou e está em diversas partes do corpo. Ela está respirando por aparelhos. As mãos não se mexem mais. Tanto sofrimento, meu Deus! Às vezes, me pego secretamente desejando que ela morra logo, por que se a cura parece impossível, para quê prolongar a dor? Mas qualquer coisa em mim diz que isso é cruel e que a gente não deve desejar a morte jamais. Às vezes, me vem a ideia poética de que ela está desaparecendo aos poucos, retomando a condição fetal, decrescendo...  

Realmente não sei definir o que sinto a respeito. Não tenho uma tristeza desesperadora do tipo “oh, meu Deus! Como será minha vida sem ela?” Penso que não irá mudar muito. Mas sinto uma tristeza plácida, não aguda, mas crônica. Talvez a nossa unidade familiar seja mais forte do que suponho e o fato de perder um membro é como se tivéssemos perdendo um pouco de nós mesmos. A vida é tão misteriosa... há um ano tudo estava bem, quem poderia imaginar isso agora? Quem determina a vida e a morte? Não fazemos ideia de quem irá envelhecer ou não. Como diz o poeta, “a vida apenas, sem mistificação”.

"O crepúsculo é a fresta entre dois mundos" - C. Castañeda