domingo, 17 de janeiro de 2016

Tatuar é enraizar o transitório

Ando ouvindo muita gente que quer fazer uma (ou mais uma) tatuagem e “não sabe o quê”. Até sabe, mas receia, temendo que aquilo deixe de significar. Bom, vamos partir do princípio de que, se você pensou em um desenho, uma frase, um símbolo, é claro que aquilo te representa em algum sentido. Tatue.
Não conheço alguém que tenha encontrado uma marca para a vida inteira. Tirando a própria tatuagem, ela própria perene, o que tatuamos é sim transitório. Somos muitos na vida. Mudamos a cada instante, dá uma olhada nos nossos cabelos e roupas de décadas atrás. Olha os amores de décadas atrás. Tenho um amigo que diz que alguns relacionamentos são como um vestido velho, esquecido no armário. Olhamos e nos perguntamos como fomos capazes de vestir aquilo. Diante desses camaleões, como encontrar algo tão eterno?
O ato de tatuar é assumir que seu corpo é um álbum. São pedaços de vidas em uma vida, são retalhos de personalidade e momentos, marcados em uma tela ambulante. Minha primeira tatuagem fiz com 24 anos, de passagem por São Paulo. Decidi que era aqui que eu queria morar, apesar de ter os pezinhos sempre no Sul. Apesar de querer um amor, mas ter outro no Sul. Apesar de não ter emprego nenhum aqui e, lá, ter um bonitinho me esperando. Não sabia o que esperar, o plano era me jogar, se eu queria mesmo aquilo. E eu queria. Aí tatuei. Bem no meio das costas. ALEA JACTA EST (a sorte está lançada, em latim). Assumi a minha loucura, a minha fé, assumi que eu era feita desses rompantes. Assumi também que meu pai ficou sem falar comigo um tempo e que e-ter-na-men-te eu ia ter que explicar para as pessoas (incluindo desconhecidos) o que significava aquilo. Uma amiga que tem uma no braço diz que tem vontade de guardar pequenos pedaços de papel com sua frase escrita só pra distribuir para quem lhe pergunta. Às vezes dá preguiça de falar.
Quando eternizei em mim essa aleatoriedade, não estava maculando minha característica planejadora e de mudar as coisas só com-tu-do-bem-cer-ti-nho. Eu sou assim. Mas às vezes a gente lança os dados, a sorte, as cartas do tarot e sai o Louco. E é aí que é hora de lançar a sorte. Se a gente não meter o louco, não preenche. Eu mesma não tinha vindo para São Paulo (currículo numa mão, mala na outra, fé em Deus e no DJ. Só).
Meu álbum tá meio vazio, então tá na hora de representar outra faceta. É hora de lembrar o que mais que eu sou capaz. E saber que tatuar algo pode perecer em nós o significado, assim como a gente muda. Mas a tatuagem fica como lembrança, como o vestido no armário, as fotos vergonhosas, os ex-namorados, os empregos passados... Se não são mais a gente, mas fizeram tanto parte da gente, não tem como deixar pra lá.