sexta-feira, 15 de julho de 2016

Sobre pais, psicólogas e o amor


(Essa não é uma história verdadeira)

Por Marina Alvarenga Botelho

Quando eu tinha 15 anos eu fui a primeira vez a uma psicóloga. As queixas vinham da família: eu era muito agressiva e não sabia lidar com o meu pai. A minha queixa pessoal era: eu odeio meu pai. Tentando entender porque eu odiava meu pai, a psicóloga ouvia os relatos: “uma vez, no meio da loja dele, ele gritou comigo e me disse: ‘você é o problema da minha vida, sua bosta’”. E mais, das minhas lembranças: “sábado de manhã ele mandou a gente arrumar a cama. Eu arrumei. Ele disse que não estava bom e que tinha que ficar igual a de hotel”. Ou também, de quando eu fiquei em 46º lugar, em um vestibular seriado com mais de mil concorrentes, e eu recebi apenas um “não fez mais do que a obrigação”.
Também contei para a psicóloga que uma vez meus pais me abandonaram no meio de uma rodovia na Bahia. Eu dividia o banco de trás com minha irmã mais nova, e como eu era maior, e ela miúda, eu achava que tinha o direito de passar um pouco da metadinha do banco. Ninguém achava isso e eu estava teimando. Aí meu pai disse: “E se você não calar a boca eu paro o carro aqui e te deixo na rodovia”. Eu, cheia de mim, falei: “então, para!”. Ele parou. Eu desci. O carro deu partida e saiu andando. Eu olhei para os lado procurando uma casa para ligar para minha tia. Me lembro do telefone dela de cor até hoje. Quando estava a perder de horizonte o carro parou e deu uma ré. Eu fui e entrei no carro. Para mim, essa situação foi traumatizante, mas para eles, não foi nada demais.
Foram vários os compartilhamentos de sentimentos e lembranças desse estilo. Mas não foi dessa vez, não deu certo com essa psicóloga. Não me lembro de ela ter ajudado, não me lembro de nada do que ela falava. A situação continuou sendo horrível. Continuei odiando meu pai.
Depois, quando voltei de um intercâmbio eu simplesmente não conseguia me adaptar novamente à vida de antes, e tive que procurar outra psicóloga.  Até que dessa vez foi um pouco melhor. Ela trabalhava com as crenças. Deus e família, principalmente. Bem, eu sou ateia, e na minha família estava difícil o relacionamento. Dessa vez, não só com o meu pai, que até hoje não passa de um oi, um beijinho no rosto e conversas burocráticas. Mas era também com minha mãe, que sempre foi o foco do meu amor em relação aos dois. A única que demonstrava afeto, a pessoa que participava da minha vida. Minha e da minha irmã.
A psicóloga falou umas coisas boas dessa vez. A principal para mim foi me colocar na seguinte situação: “você está andando na rua e vê uma pessoa conhecida passando ao seu lado. Ela não te diz oi. O que você acha que pode ser?”. Eu respondi: “porque ela não gosta de mim”. E aí ela disse: “mas será que não poderiam ser outras coisas? E se ela simplesmente não te viu? Ou, às vezes, ela está em um dia ruim”. E aí eu me toquei: “nossa, é mesmo! Nem tudo é sobre mim!”.
Lembro-me também que ela dizia: “eu posso fazer por você duas coisas: te ajudar a resolver um problema ou te ajudar a aceitar um problema que não pode ser resolvido”. O que mais me incomodava era ela tentar falar de Deus para mim. Do tipo: “se você acreditasse em Deus ele poderia ser uma força a mais para você”, sendo que eu já havia deixado claro minha visão sobre. Enfim, tive altas, voltei lá algumas vezes, mas nunca foi aquilo que eu esperava.
Me casei com um psicólogo. E em uma época muito difícil da nossa relação, ele me convenceu a procurar uma psicóloga behaviorista/comportamental.
Fui. E foi quando minha vida começou efetivamente a mudar. É quase como se fosse a abertura de um terceiro olho, no sentido de passar a ver as coisas totalmente diferentes, e de uma forma melhor, mais atenta, mais observadora.  
Aí eu acho que foi dessa vez que eu me dei bem com uma psicóloga. E entendi o quanto a psicologia é completamente mal interpretada pelo senso comum, e o quanto ela é essencial na vida das pessoas. Sério, todo mundo deveria ir!
Foi quando eu entendi que na minha criação, eu quase nunca fui reforçada positivamente – para quem não conhece o termo, quase nunca me deram um parabéns depois de fazer algo bacana. É como dar um petisco pro cãozinho que pegou e te trouxe a bolinha de volta. Esse “não fez nada além da sua obrigação” me deixou insegura, com a auto-estima baixa, buscando sempre uma perfeição que não existe, sempre com medo do que os outros vão pensar.
Percebi também que aquilo de eu “odiar” o meu pai era porque ele nunca fora uma fonte de afeto. Enquanto os meus quatro avós (paternos e maternos), foram fontes incondicionais – um carinho sem explicação!
Entendi também que, até então, os meus comportamentos operavam no segundo nível de seleção, ou seja, o ontogenético, ligado a minha história de vida. Em outras palavras, os meus comportamentos diziam respeito ao que é interessante para mim. E comecei a observar as pessoas e a entender que quase todo mundo opera nesse nível. Talvez esse seja um dos maiores causadores de problemas no mundo.
Foi também quando eu aprendi o que é o terceiro nível de seleção, o cultural, e entendi o que é amor de verdade. Que é quando seus comportamentos operam de acordo com o que é bom para o outro. Amar alguém é querer que essa pessoa seja feliz. É apoiá-la, mesmo quando você não concorda. É estar ao seu lado. E eu percebi que grande parte do que me fez sofrer muito é meus pais não operarem muito nesse nível. Meu pai, quase nada. Minha mãe, às vezes, mas isso tem mudado.
O meu pai opera totalmente na imposição da experiência soberana e incontestável dele. Para ele, tudo que sai da boca dele é um tecmérion. Mal sabe ele que eu sou um outro mundo, um mundo próprio, cheio de experiências e vivências!
Nas minhas sessões com essa psicóloga comportamental, a gente observa as minhas vivências, descrimina as coisas e cria estratégias para melhorar. Para melhorar a minha relação com o mundo, com as pessoas, mas, principalmente, comigo mesma. E isso só é possível operando no terceiro nível. Não vou mentir, é difícil para caralho! Mas tem dado bons resultados. É treino, é paciência, é quase como repetir um mantra: “terceiro nível, terceiro nível...”. Em uma briga, ao invés de contar até dez, tem sido o mantra.
Tenho os meus deslizes, e quando acontece alguma briga com meus pais, principalmente com a minha mãe, dói demais. Porque é um trabalho que tem muito tempo, amor (e dinheiro!) investido. Mas sei que é um trabalho para a vida toda – clichê, mas verdade.
Às vezes as pessoas falam: “nossa, mas você é casada com um psicólogo? Deve ser estranho, ele deve ficar te analisando toda hora”. Mas, cara, ele é meu marido, e não meu psicólogo! Os psicólogos não julgam as pessoas, muito pelo contrário! Eles são um território judgment free – tirando alguns charlatões, é claro, como em toda profissão. Acho que eu sou muito mais psicóloga do meu marido do que ele de mim. Nossas discussões são ótimas, cheias de termos técnicos, totalmente racionais – e isso é muito bom!
Na verdade, hoje eu só escrevi tudo isso porque eu estou triste pra caralho. Sempre escrevi melhor quando estou triste. Na minha sessão de ontem, eu e a psicóloga ficamos orgulhosas de como, trabalhando o terceiro nível, (que eu já apelidei de amor), consegui ter uma relação bacana com meus pais nos últimos dias. E aí hoje, tudo desmoronou, num deslize meu. Em um momento em que eu fui injustiçada – minha mãe achou que eu fui grossa em uma situação, mas eu não fui.
Era ela naquela historinha que contei no quinto parágrafo, tendo certeza que a pessoa não falou “oi” porque não gostava dela. Era ela tendo a certeza de que eu fui grossa, porque ela sempre acha que eu sou grossa. Quando, na verdade, uma das primeiras coisas que eu falei na minha primeira sessão com a psicóloga é – as pessoas falam que eu sou grossa. “Quem fala que você é grossa?”, perguntou ela. E eu disse, “minha mãe”. E ela perguntou novamente: “mas você é grossa?”, e eu entendi que eu não era grossa. Que minha mãe me achava grossa. E, pelo visto, até hoje. Ela já parte do pressuposto de que eu vou ser grossa, antes mesmo de eu responder. Enfim. Fiquei nervosa e esqueci do terceiro nível.  Acontece. E aí a gente se machuca.
A grande maravilha, para mim, da ciência do comportamento, é essa autonomia que ela nos dá de nos entender, de entender as coisas ao nosso redor. De reconhecer onde a gente errou e saber como mudar para a próxima vez. Estou numa relação séria de amor pela ciência do comportamento. Isso me dá forças demais para deixar o orgulho de lado e agir no terceiro nível. Aliás, vou ligar para minha mãe agora mesmo.