sábado, 27 de agosto de 2016

sobre ser professora



noite dessas, numa aula, após advertir que cada pessoa cria as narrativas de si, a ponto de embaralhá-las, falei sobre a minha longa experiência como professora. mais de vinte anos. iniciei a docência na pré-escola; passei depois pela alfabetização. e enquanto cursava Letras, ministrei aulas de alfabetização de jovens e adultos, ensino fundamental e médio. experienciei praticamente todas as etapas do ensino. a maior parte do tempo na escola pública. foi esse histórico que me levou a desejar ser professora universitária quando já tinha um emprego público estável e muito rentável. quando saí do Tribunal de Justiça, do cargo de revisora, estava tão convicta de que jamais me arrependeria que até hoje me recuso esse arrependimento, pensando que, se tivesse continuado lá, estaria frustrada por não ter tentado o que eu realmente desejava então.

e o que eu desejava então era ser professora universitária. e assim foi. e assim é. durante esse tempo - oito anos - tive duas grandes crises em que o quase arrependimento foi meu guia. na primeira crise, uma viagem para Belém, onde encontrei um grande amigo, me salvou. sua gargalhada, suas questões difíceis direcionadas a mim e, principalmente, o fato de ele me fazer lembrar quem eu era, foram cruciais para as decisões que tomei, de modo que atravessei essa crise com lindas realizações. agora, vivencio a segunda crise. e não sei ainda o que me salvará. o certo é que eu tenho sempre muitas "boias" --- e um tanto de visão sobre mim e sobre os outros que devem me proteger mais uma vez.

as crises vieram da minha relação com a instituição "universidade" e, por ora, sinto que ainda não tenho uma visão definida diante de tanto "horror e iniquidade" que talvez eu presencie. deixemos, por enquanto, o talvez aí. por outro lado, poucas vezes, senti-me atropelada pela relação professor-aluno, apesar de carregar no bolso histórias tristes que envolveram grandes decepções. e agora, quando vejo alguns acontecimentos de disciplinação dos corpos por meio de atos que se assemelham ao que se faz, ainda, em escolas de levar alunos indisciplinados para a sala da direção (ou orientação), sinto um certo alívio no meio da minha atual crise de docência: nunca levei um aluno para a sala de direção. e sempre achei que tal gesto exemplificava mais o fracasso do professor do que a suposta rebeldia do aluno. daí, porque, intuitivamente, sempre pensei que era preciso o enfrentamento, o "face a face". sim, porque a relação professor-aluno envolve afeto. e como tal, atritos. eu nunca levei aluno para a "sala de direção", mas já fui levada.

há uns três ou quatro anos, metade dos estudantes de uma turma que eu lecionava contratou uma pessoa para fazer o trabalho final. bastou a leitura de uns três para perceber que o estilo era o mesmo. senti-me ferida naquilo que era um das minhas maiores "vaidades": apesar de uma concepção de avaliação que me fazia não reprovar alunos e deixar isso claro desde o primeiro dia de aula, sempre havia tido adesão aos trabalhos nem sempre fáceis que eu propunha, de modo que anulei os artigos e propus outra atividade, mas os alunos, tanto os que haviam comprado o trabalho quanto os que não haviam, não aceitaram. e levaram-me às instâncias superiores. perdi de forma humilhante, porque afinal eu só tinha como prova o fato de saber reconhecer o mesmo estilo em textos diferenciados. apesar de todos saberem, inclusive os alunos, de que eu estava certa, derrotaram-me pela via da legalidade (se no meu plano de trabalho, havia que o trabalho final era um artigo, não me era mais possível mudar). foi a primeira e única vez que me senti verdadeiramente humilhada pelos alunos e por alguns de meus colegas de profissão. e não nego que desde ali houve uma espécie de ruptura com o encanto que até então eu estabelecia com a sala de aula (como o único lugar onde não me sinto nervosa ao falar em público), no entanto soube de imediato reconhecer o meu erro e meu fracasso. havia ali uma prova de fogo para o que eu havia estabelecido como ética "professoral". a opção que me foi dada era corrigir os trabalhos. eu poderia tê-los corrigido e usado o artifício de reprovar alguns deles (sim, o professor ocupa uma posição que lhe permite isso). mas eu não o fiz. passei a turma toda. um pouco porque me sentia incapaz de reler aqueles textos, um pouco porque não queria me ressentir ainda mais. sem discutir, sem reclamar, sem apelar para qualquer outra instância, dei nota 100 a todos. e me impus um esquecimento que era da ordem da crença. pois eu não podia desacreditar da relação professor-aluno apenas porque carregava a partir dali uma experiência infeliz. quando, um dia, um dos alunos me apontou a pessoa que havia escrito os trabalhos e eu nada senti, com um "dar de ombros" que queria dizer "já passou", acreditei que havia passado pela prova com a maior dignidade possível. e agora posso falar sobre isso desta maneira como agora falo: os alunos não foram honestos comigo, porém eu poderia ter escolhido uma via de "negociação" menos autoritária, poderia, por exemplo, ter deixado que eles escolhessem qual solução daríamos, e não simplesmente ter feito como fiz ao anular o trabalho.

para me contrapor a um discurso que, sob a égide da falsa relação de equidade, afirma que "professor e aluno são iguais", sem discutir as tensões que se estabelecem, tenho afirmado que há uma assimetria na relação professor e aluno que não é pouca nem irrelevante, uma vez que ocupamos lugares distintos e temos responsabilidades distintas. e penso que a maior dificuldade é justamente esta: admitir a diferença, a alteridade, e daí construir uma relação que diga respeito às razões de convivência entre o professor e o aluno, que são múltiplas, mas que passam, sobretudo, pela construção de saberes.

para ocupar o lugar de professora, é preciso ter maturidade para saber que o corpo do aluno responde a outras injunções e há nele um certo "desrespeito", uma certa falta de cuidado que deve mesmo ser instigado, pois é preciso lhe avisar do direito à indisciplina. isso não significa se sujeitar, evidentemente, mas significa saber quais são os modos adequados para tratar os atritos - que são também afetos. sem isso, é fácil entrar nessas histórias tristes de perseguições, de rancores, de "força de polícia". abdicar do direito de levar o aluno à "sala da direção", para mim, sempre foi o modo mais legítimo de acreditar que o face a face é a maneira mais desafiadora de tirar dessas tantas diferenças o que há de melhor dessa convivência, e não o que há de pior. 
 
nesses tempos duros, em que trabalho em uma universidade que reitera sistematicamente um discurso de desqualificação da prática docente, ainda me permito estabelecer um outro tipo de soberania::: a soberania de pensar que nenhum educador deva levantar sua mão pesada sobre as insubordinações, sobre os não-ditos e os ditos. pelo contrário, deve averiguar incessantemente onde - em seu corpo - estão as suas próprias insubordinações. e construir, a partir daí, um lugar comum possível com o estudante - seu outro.    

(meu dia de postagem era ontem, mas acabou não dando tempo. como vi que hoje ninguém ainda publicou, peço licença para retomar meus escritos por aqui.)