segunda-feira, 29 de agosto de 2016

soluções práticas - parte 26 (ou FORA TEMER)

Entrou e sentou nos fundos. Cansada de carregar o peso nos braços e mãos, olhou para uma delas e viu a vermelhidão, era tanta coisa na sacola do supermercado que sentiu raiva de ter comprado. Raiva do que, ali só tinha arroz, macarrão, óleo e outras coisas básicas para fazer o jantar.  Mas o que pesava mesmo era o cansaço do corpo, da mente.

Eliolete era a filha mais velha de um casal de nordestino com cinco filhos. Trabalha como balconista na 25 de março, com um salário mínimo mais comissão. Comissão rara que quase não dava em nada. Era a crise, os outros diziam, ela por muitas vezes repetia sem saber ao certo por quê. 

Moradora do Brás, nos cortiços em 2 cômodos que mais parecia um. Dividia o banheiro com outras seis famílias, e os dois cômodos com uma amiga. A estudante do quarto ano de história que ganhou uma bolsa de estudos pelo Enem.  Amiga Lena, assim Eliolete a chamava. 

Lenira era uma feminista, independente, aguerrida na luta pelo fim da exploração. Defendia o livre direito de pensar e a liberdade  do corpo, a ponto de desejar e rolar com quem fosse. Mas pouco conseguia viver a liberdade - da mente – essa era a mais difícil. Namorada do cara mais machista do movimento. Nem ela sabia o motivo. Era excitação só podia ser. Também dependência  financeira. Largou a família porque não aceitava o machismo, violência e opressão do pai.

Mas o que perturbava era ver a irmã apelidada de Laia ser tão obediente ao homem que lhe expulsou de casa. Larina de 17 anos era irmã mais nova, frequentadora da igreja, do coral e secundarista, participava dos atos e movimento escondida da família. Recentemente levou uma surra do pai por que apareceu em foto divulgada na internet, aquela pendurada nos muros com um punho cerrado pra cima pedindo o “fim da reorganização das escolas”.

 Larina se desdobrava entre a igreja e as reuniões auto-organizadas, boa aluna tirava notas altas, aplicada na hora da explicação não olhava para o lado, gostava de poesia, musica e daquele menino. Mas também sem grandes apegos. O objetivo era mesmo a universidade, prestar vestibular para engenharia. E mudar a engenharia do sistema só para homens.

O pai controlava seus passos, tinha planos para casá-la com o homem mais abençoado da igreja, o diácono de 42 anos. Também político e deputado federal engajado pela Escola sem Partido, dizia constantemente ao pai de Vânia que era a escolhida de Deus para ele.

As filhas da dona Julina, casada há mais de 25 anos com mesmo homem e primeiro namorado.  O pastor e comerciante que participava do congresso para empresários e ia religiosamente todo final de semana a igreja. Rígido, expulsou a filha de casa por ser feminista, a mais nova trazia na linha, porque ia ser gente, nada de protestos nesta família. Com ele a conversa era na pancada. Deus não se agrada de baderna, quer ordem e só existe progresso quando obedecemos. Protestar somente quando eles ordenarem.

A maioria era político e ele também almejava um cargo assim, se candidatar para vereador, deputado, prefeito, governador ou quem sabe presidente. Pastor Antônio, não faltava nos cultos. Principalmente os que Verona estava. A mais nova convertida, de prostituta a diaconisa. Que mulher! Que corpo! Que oração! A cada som da sua voz, seu corpo tremia. Mas chorava pedindo a Deus perdão, por esse sentimento e sensações.  Na última direção de Deus, ofertou um carro. Deus é que sabia, era tanta culpa que só assim para sentir paz.

Julina era mulher extremamente bonita, tinha mais de 50 anos, mas com ar de 40. Mesmo com rugas, tinha no rosto a expressão de pouco ter vivido. O sofrimento não transparecia nos traços marcantes. Os cabelos tingidos de preto para esconder os fios brancos na menor lavagem ou retoque da raiz transbordavam sensualidade, aquele cabelo no vento, as pernas torneadas, com seios fartos, bunda arredondada e quadril roliço caiam perfeitamente nas saias longas. Discreta. Mas evidente, notada onde quer que passasse.

Gostava de se vestir para si, mas detestava quando era recriminada ao colocar uma calça jeans, onde tudo ficava mais evidente. Aceitava que os anos tinham sido generosos mesmo com todo desgaste no casamento e enfado de vida.  Andava cheirosa e adorava sair sozinha à tarde quando o marido estava no comércio, sentia um ar de liberdade.

Mais alegre que de costume, ninguém percebia nada, nem os filhos e menos ainda o marido. Por acaso, numa tarde conheceu Alzerina, mulher inteligente, com papo interessantíssimo, proprietária de loja alugada de artesanatos e professora de filosofia aposentada. Suspeitava ser lésbica. Mas não perguntava.  Alzerina gostava de conversar, de ficar por perto. E com ela sentia o prazer da conversa e atenção que o marido não tinha. Esquecia do peso das mãos do marido. Sentia que de certo modo, nestas conversas era livre.

Eliolete não entendia a família religiosa que vivia no inferno. Menos ainda da exploração que a amiga tanto falava. Mal compreendia qualquer significado do por que é tão pobre. Largou os estudos no primeiro ano do ensino médio. Veio para São Paulo para ficar com uma tia.
A tia fazia dela empregada. Dava uns empurrões quando não fazia algo certo.. Já que é assim, apanhava do pai lá, não ia apanhar aqui.

Desde então é só. Mas tem facilidade para fazer amizade. Faz com quem quer, tenta ser solidaria, mas se abusar e moscar vai ver o retété. Às vezes tem um affer e outro que logo acaba em meses ou em anos, mas acaba. Usa o pouco para se divertir, não quer ter filhos: pra quê sofre o que sofri? Era mais livre do que alguns podia imaginar.

Chegou. O próximo ponto já era o seu. Quando desceu, deu de cara com uma manifestação com muitos cartazes e bandeiras, na grande maioria vermelha e preta. Lembrou que a comissão do mês não veio sequer para fazer a feira. E continuavam dizendo que era a crise.
Crise ela vivia desde pequena, pensou.

Subiu as escadas, abriu a porta, deixou as sacolas na mesa. Flexionou as mãos para a dor e marcas passar. Falou oi para Lúcia  que estava varrendo a casa, foi em direção a janela e ficou olhando a manifestação seguir com cartazes e gritos de: FORA TEMER, FORA GOLPISTAS!

Pela primeira vez, aquilo fez algum sentido. Virou-se para a Lúcia e Lena e disse:
- Vamos?
 Desceram as escadas, abriram o portão e correrão na direção da manifestação para gritar:
FORA TEMER, FORA GOLPISTAS!

Lenira conhecia bem esses rompantes, era o começo de. Eliolete, não entendia, mas queria estar ali e continuar gritando com toda as forças e ar dos pulmões.