segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Carta para Sofia

Querida Sofia,
você não deve se lembrar de mim, afinal, nos esbarramos pouquíssimas vezes pelas ruas e confesso que demoro a conseguir interagir com crianças. Da última vez que te vi com seu pai já não consegui identificar em você os elementos que caracterizariam a filha de um amigo - me senti velha, já que você não mais parecia estar na infância que eu imaginava.

Ao principiar de todos os anseios que vivemos com as notícias e - sobretudo - com a ausência delas no mês passado, ao invés de me debruçar sobre o luto de um amigo, me surpreendi pensando em você. Talvez a sua travessia de agora seja a conclusão de um quebra-cabeça que tenho montando desde julho do ano passado. 

No viver, Sofia, como diria Guimarães Rosa, "tudo cabe", inclusive a dor, a desigualdade, a injustiça, a morte. E, infelizmente, não é porque nossos sonhos são belos e as nossas ações nobres que seremos poupados. A passagem da morte por minha vida - assim como na de inúmeros amigos, inclusive, amigos do seu pai - foi muito precoce. Não consola saber disso, eu sei. A perda de alguém querido, sobretudo de um pai tão amado, é avassaladora. Assim como venho me equilibrando nessa corda bamba, caberá a você - e somente a você - encontrar maneiras de enfrentar os dias e seus ecos de ausência. 

Sim, o luto é tocar na solidão. Talvez minhas palavras não sejam adequadas para uma menina tão nova, mas é assim que tenho atravessado o tempo bom e ruim: somos metade vazio, metade completude e quem conduz o volume desse liquido tenro chamado vida somos nós.

Certa vez me peguei pensando como gostaria de ser mexicana e vivenciar, por dentro, a "Fiesta de los Muertos". Se aqui nossa comemoração é demarcada pela finitude dos "finados" em contraste com suas terríveis flores de plástico (que não morrem), no México a data é um período de visita dos que não estão mais aqui, e eles são recebidos com banquetes e muitas música.

Se a passagem de fato nos permite escolher onde queremos estar, acredito que nossos pais estejam às margens de um belo rio, felizes e pescando.


B.