sexta-feira, 3 de março de 2017

Carnavalizando

          Eu vou acordar com o som das baterias anunciando que logo o centro da cidade será dominado pela multidão fantasiada, dançando enlouquecidamente! Eu vou levantar sambando, recolhendo confetes e glitter do dia anterior! Eu vou abrir a minha casa para meus queridos se arrumarem e tomarem a saideira. Se não for pra sair toda montada, nem vejo graça!  


         
       Eu vou ser um arco-íris de glitter, brilhando nas cores mais sortidas! Eu vou me enrolar nas serpentinas jogadas! Eu vou dançar até ficar descabelada! Eu vou sambando de costas para o bloco! Eu vou conseguir pular meu carnaval mesmo apartada na multidão, no melhor do calor humano! Eu vou recolher os confetes que caíram no decote do meu vestido e vou jogá-los novamente pro alto! Eu vou rir com as 300 fotos que chegam no dia seguinte, mostrando o quanto eu me diverti! 


     Eu vou sair sambando em todas as poças deixadas pela chuva, pois chuva nenhuma atrapalha minha folia! Eu vou deixar o meu celular dormir no arroz, pois guardar ele na bolsa térmica não protege o suficiente! Eu vou tirar minha lente de contado no meio da multidão, não vou perder a música só pela lente estar cheia de glitter!
    

     Eu vou compartilhar a minha catuaba e meus abraços com todo mundo! Eu vou mandar mensagens sem me preocupar em ter ressaca moral! Eu vou deixar a minha euforia transbordar! Vou pular enlouquecidamente ao som de Caetano! Eu vou viver em looping, saindo de um bloco e tropeçando no outro! Eu vou perder a voz de tanto cantar! Eu vou de columbina veneziana, de Carmem Miranda da Tropicália, de Frida Amy Winehouse Kahlo e de dama de ouro! Eu vou ficar tão cansada de dançar que, na quarta-feira de cinzas, vou me sentir atropelada por um trio elétrico!   

A ressaca do fim do carnaval é a hipocrisia. É ver as pessoas tirando suas fantasias e colocando suas máscaras sociais. Como voltar a viver depois do carnaval? Definitivamente, eu não tô segurando essa barra que é gostar de você dig dig iê o fim do carnaval! Quem nasceu para poesia não se contenta com a vida em tons de cinza. Quem nasceu para poesia precisa do transbordar de cores e da cidade dominada pelo clima de “anarco felicidade”.

E na depressão pós-carnaval ainda bem que existe o cenário alternativo na capital paulista, aonde podemos ter um pouquinho desse encantamento toda semana. Aonde existem pessoas que também precisam do riso fácil com os amigos, da música alta, do dançar freneticamente, do glitter, do amor fraternal... É, nós seguimos carnavalizando a vida, não trocamos a fantasia pela máscara social, pois, para nós, a vida é um eterno carnaval.