segunda-feira, 20 de março de 2017

Não há nada acontecendo


As panelas pararam de bater na zona oeste quando ainda havia um restinho de comida nas panelas da zona leste. O objetivo já havia sido alcançado, não tinha porque continuar.

“Vamos, tesouro! Não se junte a essa gentalha”, gritou a mãe, preocupada que a camisa da seleção fosse, de alguma forma, ficar vermelha. Argumentou que já havia simpatizado com o outro lado, mas só até o momento em que se associaram com a banda podre.

Faz sentido. Só não entendi qual a vantagem de deixar, então, só a banda podre. Mas sementes gostam de coisas podres. Esta foi plantada, cresceu e já começa a dar frutos. Parece ser a hora de colocar as coisas nos locais historicamente a elas relegados.

Ouvi dizer que vão reformar o ensino. Alguém tem dúvida de que o ensino está ruim? É óbvio que precisa de reforma. E agora o jovem já vai sair da escola com uma profissão de nível técnico. Para que pensar em fazer faculdade? É caro, demora, é difícil, então que se contentem com um nível técnico mesmo.

E a aposentadoria? A população é composta por uma ampla quantidade de vagabundos que relutam em trabalhar até o fim da vida, ganhando salário baixo e tolerando empregador abusivo, mas não tem outro jeito. A taxa de inadimplência de impostos das empresas brasileiras é uma das mais altas do mundo, a única saída qual é? Dificultar a aposentadoria do trabalhador, claro!

Aliás, esse é outro tema importante. A legislação que protege o trabalhador é de 1940. Não é evidente que precisa ser revista e modernizada? A lei que proíbe o aborto também é dessa época, mas nessa a gente não mexe. O importante são as leis trabalhistas. Hoje o empregador é obrigado por lei a pagar um salário mínimo, se ele quiser pagar mais, tudo bem. É evidente que retirando a obrigatoriedade do valor mínimo, os salários irão aumentar, não?

E isso resolve o desemprego? Claro que não! Mas notar-se-á uma tacada de mestre nesse ponto: as mulheres não vivem reclamando que ganham menos e cumprem jornada dupla? Pois basta retirá-las do mercado de trabalho! Olha que maravilha, elas não terão mais jornada dupla, serão belas-recatadas-e-do-lar, criarão as crianças e nos informarão os preços no supermercado.

Uma exceção fica por conta das empregadas domésticas. Não faz muito tempo começaram a estudar e a ganhar regalias como carteira assinada e horário regulamentado. Há quem tenha orgulho em dizer que esse tipo de coisa nunca tinha acontecido na história desse país. Mas é claro que não! O país tem raízes escravagistas e as mulheres negras ocupam lugar cativo nas neo-senzalas. O ministro do trabalho até impediu a divulgação de uma lista com empresas acusadas de trabalho escravo, tudo em nome dessa tradição nacional que vem desde os tempos de Cabral – o Pedro, não o Sérgio.

A corrupção não acabou, mas seria injusto dizer que nada mudou. Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel. É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional. Com o Supremo, com tudo. Se há um caminho mais fácil, por que ir pelo mais difícil?