segunda-feira, 8 de junho de 2009

O tempo e o egocentrismo ao contrário


Acordei uma manhã para constatar que meus pensamentos haviam sido tomados, quase inteiramente, por números: o número de dias que resta para o fim da faculdade, o número de anos que gastei nela, o número de semanas para ir embora, o número de amigos para os quais poderia ligar num fim de semana, o número de horas de um sábado que demora a terminar, o número de anos que vivi e que insiste em não fazer parte de mim, o número assustador de anos que me falta viver. Se você já cansou desse monte de números, acho que consegui fazer meu ponto. Acontece que, enquanto persisto no meu irritante hábito de calcular, a vida me escapa, pois o tempo, ele mesmo, é inatingível. E assim me vejo lutando contra o impossível, contra o habitual, o natural. É como se de repente eu me desse conta de que não sou, afinal, um ser especial, algo como um protagonista da história do meu próprio tempo, pois que este não me pertence. Essa impotência onipotene me fez, de repente, perder a crença de que algo de muito importante se esconde em mim, algo que instigue, algo que desperte para si o interesse alheio ou meu próprio. "Quantos segredos que você guardava, hoje são bobos ninguém quer saber"(1).

Estou vivendo uma espécie de egocentrismo ao contrário, um, por assim dizer, "egoperiferismo". Explico: meu eu está em algum lugar longe do centro de mim mesma. "Com o tempo, perdi o jeito de ser gente"(2). Foi assim que cheguei à conclusão que o "eu" não existe: levo um dia todo me procurando e quando estou prestes a me achar já é noite e, então, temo dormir porque amanhã já não será esta a minha configuração de mim.

E assim, na reflexão sobre essa que suponho ser, o que acabo de concluir se distanciará de mim a cada instante pulsado no relógio, de forma que, ao longo do dia, isto que agora escrevo dirá sobre outra que não esta (ou aquela), sobre uma existência passada.

Me despeço e já começo a calcular quanto tempo me resta até que aqui retorne para mais um dia 8 que, ironicamente e coincidentemente (ou não), simboliza o infinito, o constante, o tempo e sua irreverência e... o número do dia da materialização do meu próprio infinito.

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"Quando eu me considerava todos os dias no umbral de minha vida ainda inata e que só começaria no dia seguinte na realidade a minha existência já havia começado, e ainda mais, o que ocorreria depois não seria muito diferente do que ocorrera até então. Eu não estava situado fora das contingências do tempo, mas submetido às suas leis, tal qual aquelas personagens de romance. Sabemos teoricamente que a Terra gira, mas na verdade não o notamos; o chão que pisamos parece que não se move, e a gente vive tranqüilo. O mesmo acontece com o Tempo na vida. E para fazer-nos ver como foge depressa, os romancistas não têm outro remédio senão acelerar freneticamente a marcha dos ponteiros e fazer com que o leitor franqueie dez, vinte ou trinta anos em dois minutos. Nos primeiros períodos de certa página, deixamos um enamorado cheio de esperanças; nas últimas linhas da página seguinte vamos encontrá-lo já octogenário, dando penosamente o seu passeio cotidiano pelo pátio do asilo..."(3)

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"O tempo não pára e a gente ainda passa correndo e eu fiquei aqui, tentando agarrar o que eu puder"(4).

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1. Oswaldo Montenegro - A lista
2. Clarice Lispector - A paixão segundo G.H.
3. Marcel Proust - Em busca do tempo perdido. Volume 2 (fragmentos)
4. Cazuza