segunda-feira, 29 de junho de 2009

Pra você...

Era miudinha, não, na verdade era raquídica, a sexta colocada na fila dez irmãos. Gostava de brincar nos matos, em especial com o irmão Zé que era menor-chorão. Não tinha brinquedos, o único dado com tanto esforço pelo pai era uma boneca de pano, cabeluda e colorida. Amava aquela boneca e raramente brincava com ela na terra ou nos matos, gostava de olhar seus cabelos e corpo colorido quando na rede em que dormia e pela frestinha da porta entrava a luz do lampião deixando mais bonita. Não dividia a boneca por nada, as irmãs tinham raiva quando escondia, pois gostavam de provoca-la ameaçando jogar nos matos ou no curral das vacas. O amor não era pelo material mas de saber que aquele seria o único presente vindo de seu pai. O nome da boneca era Camila. Um dia brigou com a irmã Margarida sempre se engalfinhando pela casa, mostrando língua uma pra outra se atracando no terreiro escondido da mãe; por que se a dona Francisca visse aquele fuzuê era surra de cipó nas duas, mais nela do que na outra irmã, pois sentia uma preferência no ar. Ficavam de mal o tempo todo, pois Margarida era ciumenta que só, não gostava do carinho que os irmãos tecia pela irmã. Certa vez achou o esconderijo secreto, onde guardava a Camila, saiu correndo pedindo pelo amor de Deus “me dá a boneca”, Margarida numa risada escandalosa e maldosa disse “olha o que faço com ela”, de longe viu arrancar os cabelos, rasgar a roupinha e queima-la. Ainda se lembra deste dia e como chorou durante dias por não ter mais Camila, por não mexer nos cabelos, balança-la para alto e aperta-la contra o peito.

Passado alguns dias, foi consolada com um presente vindo do pai, que se entristecera com o que ocorreu a Camila, pelo choro e tristeza de dias de sua filha amada e discretamente preferida. Era pequeno, olhos meigos, amarelado lembra um labrador, balançava a metade de um rabo, sim, tinha defeito mas ficou tão feliz que não ligou, entregou o vira lata Tobi em suas mãos, nome que lhe dera na hora.
Virou seu amigo e onde ia lá estava Tobi, ficavam nos matos e saiam correndo ao sinal do grito da dona Francisca no ar “ohh menina bora comer, diacho onde essa menina se meteu”, sem pensar saia correndo, quase sem ar, sabia que se atrasasse o almoço era inevitável a pragata com prego nas costas ou no rosto. Certa vez Tobi foi atravessar a única pista que dividia a vila e viu seu melhor amigo morrer atropelado. Ficou tão triste que prometeu nunca mais ter outro pois ninguém assumiria o lugar de Tobi. Começou a trabalhar cedo, a fazer comida no fogão de lenha que mal alcançava, mas colocava um banquinho pra mexer nas panelas de ferro tão pesadas e quente. Sabia o que tinha de fazer pois os pais trabalhavam na roça e vê-los chegar com fome para ainda fazer,era demais. Então compreendeu cedo que precisavam de ajuda.

Não era a mais formosa entre amigas, na escola raramente fazia sucesso entre os meninos, até crescer e virar mocinha; para comprar roupas, perfumes ou maquilagem saia batendo na porta da vizinhança e perguntava quem queria avon.Já tinha 15 anos e era a época da brilhantina, usar meias coloridas e purpurinadas com sandália de salto alto, fazer vestidos de renda, rodados e coloridos na dona Toinha. Adorava dançar, perdia a noção do tempo, jogava as mãos pro ar, sem querer saber quem olhava, sabia que chamava a atenção que a menina outrora sem graça e sem jeito arranca alguns suspiros quando passava. Mas não ligava era tímida e recata demais para ar atenção e ai se os irmão João e Antonio soubesse, era briga na certa.

Casou cedo, com 17 anos, por um descuido uma visita inesperada a forçou a tomar uma atitude, pois mulher solteira naquela condição era sem vergonha e não merecia ficar entre o povo direito, religioso e de família. Não sabia que aqueles seriam anos difíceis de conviver com alguém complexo,difícil, genioso e violento. Certos tipos de lobos só viram cordeirinhos quando é conveniente. Embora a dificuldade fosse a prova de que cometera um erro, se deixava ser feliz por dois motivos pequenos e frágeis que concebera.

A vida errante e mais certo dizer que se encaixava perfeitamente na história Vidas Secas (de Graciliano Ramos), seria um resumo de parte de sua história. Certa vez duvidou da existência de Deus e fez a seguinte reza “se existe mostra-me um lugar que tenha fartura e que não passe por tanta necessidade”, o Senhor estava atento e ouviu sua súplica.Mais dois meses e se mudou para um paraíso na terra, a bela e encantadora cidade de São Sebastião da Grama. Não podia acreditar, olhava perplexa o lugar, rios, cachoeiras, pomar gigantesco, um horta mal cuidada, leites de cabra, vaca do que quisesse, finalmente o alivio, ali não passariam necessidade.

A atitude impensada de um homem que não sossegava, que tinha um espírito inquieto e dissimulado, pois achava por bem concertar seus erros fugindo,destrói mais um sonho. Não demorou muito pra conhecer o mar, praia, areia branquinha, conchas coloridas e um céu azul. Sim, ali seria um bom lugar para recomeçar. A imagem sentada na praia, mexendo na areia, nas conchas e olhando o mar vagueia sempre nos pensamentos. O lugar lindo e acolhedor era palco de lágrimas que rolavam sem parar, hora pelas dificuldades, hora por ele, hora por inquietações da alma. Não a deixava só, sentava do lado e perguntava o que tinha, mas não respondia, dizia que era nova demais para entender. Certa vez foi surpreendida, havia dito algo que a fez pensar que não era mais uma menininha e que embora não compreendesse muita coisa estava ali para abraça-la, beija-la e ouvi-la quando precisasse. O tempo é o melhor remédio, e conquistada a liberdade, vive com prazer todos os dias,adora dar risada, contar piada e ainda gosta de dançar,alegre por ter uma imagem jovem, fica tão feliz quando dizem que não aparenta ter a idade que tem,é grata por tudo o que Deus fez/faz em sua vida.

Talvez por isso goste tanto do sol, do mar, do céu e da praia. Por que foram palco de um fragmento inesquecível, que guardo até hoje; naquele exato momento nascia uma grande amizade.

Sim, estou falando dela.

Minha melhor amiga.

Minha mãe-mainha.

foto: Rosy Pimenta/net/Valmir