quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Agradeço a santo Expedito pela graça não recebida

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.
Foi, pousou, e nada mais.


Comandante de uma legião romana, Expedito tinha uma vida devassa antes de converter-se ao cristianismo. Prestes a aposentar sua porção Messalina subindo (e descendo) pelas paredes, apareceu-lhe um espírito maligno na forma de um corvo. Negra como a cabeleira do Sarney, a ave crocitava cras, palavra latina que significa “amanhã”. Decidido e arretado, o futuro santo das causas urgentes pisou na ave bradando hodie, ou seja, “hoje”.

Me lembrei dessa historinha ao dar conta (sem trocadilho, infelizmente) de uma infinitude de deadlines, mais uma expressão do estúpido dialeto corporativo que infesta o vocabulário pobre de alguns chefetes. O fato é que deixar tudo para a última hora não é exclusividade brasileira, ao contrário do que apregoam todos os anos as soporíferas matérias sobre a entrega do Imposto de Renda ou as compras de final de ano, por exemplo.

O fenômeno foi descrito nas páginas da The Economist por Cyril Northcote Parkinson em 1955. “É o homem mais ocupado que tem mais tempo livre”, afirmou o historiador. Pronto. Nascia a “Lei de Parkinson”, cujo funcionamento é tão inconteste quanto a da gravidade: “O trabalho expande-se de modo a preencher o tempo disponível para sua realização”.

Todo esse blablablá para mais uma digressão em busca de respostas de por que deixar sempre tudo para a última hora. A internet multiplicou as oportunidades de distrair a atenção, ocupando nosso tempo com pequenas coisas que desviam a concentração da tarefa principal. Mesmo assim, a culpa é sempre da peça em frente ao monitor. :P

Bem pior que papéis fora de lugar são os sonhos acomodados em gavetas à espera da ação do deus Acaso. Quantos projetos de vida jazem sob a lápide da indisciplina, infecção letal que acomete especialmente os mestres na arte de encontrar desculpas? Como denuncia a etimologia, “disciplina” e “discípulo” têm raiz na palavra latina discere, que significa “aprender”. Assimilo essas filigranas semânticas, mas continuo incapaz de pisotear o corvo que vela minha lista de tarefas pendentes.

Que bom seria dar uma despirocada e culpar um corvo pelos infortúnios. A proposta sequer é original, afinal santo Ambrósio já desancou a ave pelo fato de não ter retornado à arca quando Noé a soltou para examinar os efeitos do dilúvio descrito no Gênesis.

Pior ainda é continuar a leitura do poema de Edgar Allan Poe que usei no início do texto, nova tentativa frustrada de conferir algum verniz poético à minha verborragia catártica. Em vez do “cras” do corvo morto sob o chulé nada santo do Expedito, o pássaro da poesia do norte-americano grasna o mantra “Nunca mais”. “Profeta ou demônio?”, pergunta a personagem que recebeu o visitante alado.

Acossado pelo exu da procrastinação, apelo à verve de outro poeta (verde-amarelo, desta vez) para tentar exorcizar os augúrios-grilhões: “Temos todo o tempo do mundo. Sempre em frente. Não temos tempo a perder”. Assim seja.

PS.: Como sói acontecer, terminei o texto na manhã do dia 30, prazo final para postar aqui no blog.