domingo, 29 de novembro de 2009

Ontem lembrei da primeira vez em que te vi

A sensação de sempre. De achar que posso encontrá-lo na multidão. Não que esteja à procura de alguém igual, mas a sensação contínua de qualquer momento fixar os olhos, como à primeira vez em que te vi. Não vai lembrar, tenho certeza disso. E ontem um homem de sua estatura, imitava seus gestos. Colocava às mãos atrás da cabeça, fazendo ar de inquietude ou desdém.Estava de costas, meus olhos fixos nos braços, nas mãos, na cabeça, tentava identificar qualquer detalhe. Estava longe, e de costas, era difícil reparar nos detalhes. Não conseguia tirar os olhos do homem, e pensava será que é ele? Mas o que estaria fazendo aquela hora?Chegando perto, descobri que não era você.

Lembrei de uma noite fria e chuvosa, estava saindo tarde, fora do horário de costume. Olhava da janela, aos poucos cessava o temporal. E descendo as escadas,parou. Ficou de frente para a porta.Sentiu as mãos suar tanto que mal podia segurar o guarda chuva, um frio na espinha, um vai e vem pelo corpo,coração disparado, alguém sentado olhando a chuva passar.Mas tão parecido, que fez com que ficasse parada olhando por alguns segundos praticamente imóvel. Não pode ser ele, estou vendo coisas? Já aconteceu tantas vezes, errante no identificar, eram retratos falsos, fruto de uma saudade sem fim. A certeza que o estava procurando, tentando achá-lo em outros. Então, abriu o guarda-chuva e foi embora. Um pouco nervosa consigo, se perguntava até quando ficaria deste jeito. Já se passava meses desde então e estava na hora de esquecê-lo.

E lembrei daquela triste noite. Num corredor, várias pessoas, indo e vindo. De longe coração saltado.Nossa é ele!Sensações diversas, tudo ao mesmo tempo, no mesmo segundo. Depois de tanto tempo, meses e meses a fio.E lá estava, era você, tão real, tão vivo, do mesmo jeito, ainda mais bonito.E triste sensação de nenhuma palavra, nem - oi.? Não sei explicar o que senti, era alegria de rever e tristeza por nada ouvir.Depois daquele dia, percebi a grande ilusão, momento certo para esquecê-lo de uma vez.

Tentou. Forçava flertes na menor oportunidade, tentava se convencer dos detalhes que este ou àquele tinha diferente dele, no esforço de arrancá-lo de seus pensamentos. Não adiantou, não encontrava aquele desejo no olhar, aquela vontade louca de fragmentar o corpo, forçar suspiros, boca entreaberta, seca de alguém que chegasse perto do que foi com você. Doce ilusão, quanto mais tentava, mais se decepcionava. Resolveu fugir. Dando às costas a qualquer informação. ficou triste. chorou. Percebeu que a indiferença trazia (ainda mais) sofrimento, é uma mentira a si mesmo, que é o melhor jeito de esquecê-lo. Grande engano! Grande erro.O bem e a diferença que ele faz em seus dias supera a tristeza, a frustração do desencontro, e mesmo sem tocá-lo, sem tê-lo restando a doce inveja de quem o fez. É embebedação de espírito ansioso, devaneios e anseios de anos? Já perdeu a conta de quantas vezes se pergunta isto. E hoje mais uma vez o procurei, no rapaz encostado na parede com camiseta azul marinho, calça preta, mas este parecia mesmo. Um pouco mais alto é verdade, mas a boca, a sobrancelha e às mãos eram quase idênticas. Se ao menos tivesse o olhar? Mas nada. era muito fulgás.

E ontem à noite em vão tentava dormir, rolando de um lado para o outro da cama, lembrou do primeiro dia. Ele estava atrasado, esbaforido, apresentação rápida, naquela noite feliz. E naquele instante era fechar os olhos que o tocava, o beijava e até sentia suas mãos mexendo no meu cabelo...e sei, havia bastante gente ali, mas para mim, era só eu e você e mesmo se tivesse um muro, um vidro qualquer coisa, conseguiria tocá-lo.Seria uma explicação para tantos olhares.
Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata!
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( Carlos Drummond de Andrade )