quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Tempo nublado no céu da boca

- Você tem dois caminhos: ir ou ir. Não me venha com atalhos, com covardia dizendo que por ali tem lobo mau, sim? - Deixou aquela presença densa na avenida movimentada e seguiu sem olhar para trás. De costas parecia ser maior ainda, sua sombra abraçava a cidade, engolia transeuntes e todas as gentes que tinham sempre algo a vender: pipoca, algodão doce, corpos, pó, pedras. Felipa costuma ser firme com suas meninas logo na primeira aula prática. Corpos âmbar infantis com roupas de idade maior quase sem roupa na luz néon da Augusta. Clara fora adestrada para só dizer “sim” – Sim – disse com a voz miúda qual seu corpinho. O vento de fora era frio e sem céu, o vento de dentro estava cheio de estrelas. O corpo magro, os cabelos dourados e o rosto de boneca da novata incomodavam as mais experientes. - Olha só garota, este quilômetro é nosso, chegamos aqui primeiro. – A tristeza da menina contrastava com o strass da roupa, com o glitter da bolsa de mão e com a sombra viva azul de seus olhos. Ela tinha o céu acima dos olhos e tudo que ela queria era ser vento, sair dali assobiando, passeando por todas as brechas, janelas e nunca mais voltar. A esperança de Clara cabia dentro daquela bolsinha.

27 comentários:

Nobre Epígono disse...

Sempre tá em qualquer coisa que a gente queira. Basta tê-la e crer que vai dar certo.

=]

Abraço, Cabral!

Copo sobre a mesa. disse...

"Ela tinha o céu acima dos olhos e tudo que ela queria era ser vento."

Adorei isso. x)

Eduardo Araújo disse...
Esta postagem foi removida pelo autor.
nathaliaqueiroz disse...

Na Augusta... Vento, estrelas sem céu, luz neon... Se bobiar, passam a mão nessa bolsa dela fácil fácil. Abre o olho e fica esperta, Dona Clara.

Eduardo Araújo disse...

Ai ai ai! Você é possuído pelo demônio. Tão bonito seu texto que fico esperando brotar uma antologia desses seus relatos sumários (Aliás, não ficaria lindo um livro com esse título: RELATOS SUMÁRIOS), escreva-o, e bote crédito a quem sugeriu o título, pois se você lançar eu compro, e ponho meus alunos de pós (você é sofisticadíssimo) para ler e lançar no mar oferendas para Iemanjá te fazer nunca jamais neca perder esse talento de escritor nefasto.

Pois, só você mesmo para rimar tristeza com strass nas pálpebras de neblina dessa Cabíria cuja esperança cabe inteira numa bolsinha.

Eduardo Machado Santinon disse...

Cleytão escreve bem demais, e é bem legal talento escrito lembrar dos fudidos.

Kyara disse...

quero ser vento assim como você, tão leve de criação, tão cheio de emoção.
gosto.

Lili disse...

as vezes curto, mas nunca seco, né, meu filho?

assim que eu gosto.

=*

Daniel Cisneiros disse...

"Corpos âmbar infantis com roupas de idade maior quase sem roupa na luz néon da Augusta."
Isso é tão sofisticado que eu fico com vergonha de ler agora, que acabei de acordar e ainda tô com o olho sujo de remela.
E se o "Relatos Sumários" sair, repito e não me canso, avisa!!!!!
^^

Sentilavras disse...

Belo texto, como sempre, né... =D

Juliana Cruz disse...

gostei da foto.

Tatiana Lazzarotto disse...

Aiai, tão bom esse blog ter o Cleyton, aiai...

Cleyton Cabral disse...

É, Jubs, Cinza: a cor do texto, a cor de sampa, a cor de Clara.

Fran disse...

Cabia dentro daquela bolsinha?
Pequena essa esperança hein...
Lindo texto, adorei!

Beeijos!

Sakana-san disse...

Logo, logo sou eu que caio nessa vida cinza se as coisas continuarem do jeito que estão aqui na agência.

Cleyton Cabral disse...

Fran, ela queria tão pouco. E um pouco naquela situação é um tantão. Beijão.

Marcela Paiva disse...

eu só queria dizer que adoro a palavra transeunte.

Camila Marin disse...

Quase todas as mulheres são adestrada para só dizer sim.
Por isso não nos atrevemos a sonhar algo que não cabe numa bolsinha.

[ rod ] ® disse...

conjecturas e então o eixo de ir e ir se confundem... pode-se ainda dizer sim quando o sim já foi dito bem lá no início da rua? abs meu caro.

Dandara disse...

Cabia dentro da bolsa, fechada por sinal.

Arthur Dantas disse...

É impressionante como tão pouco as vezes parece ser muito, e mesmo quando parece ser tão pouco ele ainda parece ser tudo.!

sueli aduan disse...

...O vento de fora era frio e sem céu, o vento de dentro estava cheio de estrelas.

Belo! póetico...triste e de uma delicadeza imensa.

menina mulher mae disse...

parabens adorei,adoro tudo que vc escreve é de uma riqueza incrivel...

Ana Carolina disse...

Belo texto... eu tbm queria ser vento...

Ana Carolina disse...

Belo texto... eu tbm queria ser vento...

Lai Paiva disse...

Querido, já estou por aqui pra ver mais algumas dessas produções tão legais que brotam de vc... Bjs

Híndira disse...

Decadência.