domingo, 20 de junho de 2010

Um dia após o outro

Faz um tempo que escrevi este texto. Encontrei aqui no meu arquivo e sinto que vale a pena ser publicado aqui:

Alguns dias são engraçados… o meu começou mal, o ônibus passou ignorando minha mão estendida. Fiquei com cara de bunda no ponto. Quase 25 minutos depois passa uma perua lotada. Fui socado junto com uma multidão até o metro, no melhor estilo lata de sardinha. O motorista parecia não ter a menor pressa, era como se tivesse dirigindo um ônibus de turismo a 20km /h, só para dar tempo de embarcar o máximo de passageiros possíveis pelo caminho. Para fechar com chave de ouro a primeira etapa do dia, quase cai ao descer do último ônibus (pego 3 ônibus + metrô para ir de casa ao trabalho). Nem olhei para os lados ao atravessar a rua, um carro freia bruscamente e levo um xingo… tudo bem.

O trabalho foi corrido, pepino em cima de mais pepino. Gambiarras, correrias, mais jobs, textos, atualizações, imagens, pepinos, reuniões… tudo ao mesmo tempo. No fim do dia, tudo ok, apenas uma carta não foi entregue. Legal, a chefe percebeu: Lavada na frente de todo mundo.

Saída: olho pra minha mochila e lá estão 5 DVD’s que devem ser entregues na locadora. Faço cálculos: são 19h10, a locadora fecha às 21h, levo 2 horas para ir do trabalho, na zona Sul, até minha casa, na Zona Leste. Melhor correr.

No caminho até o ponto, uma senhora me pede informação. Tento atendê-la, ela puxa conversa… droga! odeio ser indelicado. Me desculpo e parto. Ônibus, ponto, ônibus, metrô. Chego à estação que devo descer e procuro minhas opções: primeira opção ônibus Jd. Camargo Velho, ausente. Segunda opção ônibus Jd. Camargo Novo, não está. Última opção – maldita perua – está lá, entuchada de gente.

Subo na perua.

Cobradora: _ Pessoal, pode dar mais um passinho pro fundo?

O povo: _$%@¨¨#$¨… Não tem como moça… $¨#$%&$%&, não dá.

Cobradora: _ tem como passar a catraca, por favor?

Eu: _ eu ate passo, mas já são 20h35, preciso chegar rápido, vocês já estão saindo?

Cobradora: _ Já sim.

Fiquei unido à multidão por mais uns 10 minutos até o motorista ligar o motor. Pro meu azar, ele era mais um motorista turístico pronto pra mostrar, lentamente, todos os pontos da periferia ao povo. Eu já estava à beira de um colapso. Senti meus olhos encherem de lágrimas relembrando o ingrato dia. O “mano” atrás de mim, além de estar atrás que por si só já é uma experiência um tanto quanto desagradável, ainda possuía uma mochila que me furava um rim.

Deus, o que está havendo? O karma pegou um pouco pesado hoje, não acha? Hoje ainda é quinta-feira 12, como será amanhã, sexta-feira 13? Será que a vida está valendo a pena? Estou sacrificando meu tempo, minha filha, minha saúde, meus sonhos, minha mente… deixando muitas coisas pra trás por este trabalho… minha escolha foi certa? O que mais falta pra acontecer hoje?

Foi só perguntar e alguém deu um puxão na minha blusa. Em uma fração de segundo, pensei comigo mesmo “agora já agüentei demais, esse sujeito vai ser a vítima de minha cólera!” e me virei enfurecido…

Uma linda bebê, com olhos inocentes e uma mãozinha que parecia uma bisnaguinha seven boys se esforçava para agarrar novamente minha blusa. Quando me viu seus olhos se contraíram e ela sorriu com uma boca pobre de dentes, mas rica em algo muito valioso que não sei como chamar.

É, Deus… entendi o recado. Amanhã tem mais.