sábado, 19 de junho de 2010

Vou te comer

Em geral, minhas bonecas preferidas na infância eram Barbies, mas houve uma exceção à regra que até hoje me encanta pela genialidade. Era uma boneca de pano que meu pai trouxe de uma de suas viagens acadêmicas e que, à primeira vista, não aparentava ser nada além de um produto artesanal bem acabado. Mas não era...

Depois de algum tempo de exploração lúdica, descobri que o que inicialmente passava por uma simples Chapéuzinho Vermelho se transformava magicamente na Vovó (era só virá-la de cabeça para baixo). Aquela mudança já seria o suficiente para encaminhá-la aos primeiros lugares do ranking de brinquedos mais adorados, mas o melhor ainda estava por vir.

Com mais algum tempo dedicado à manipulação do objeto fantástico fiz uma das descobertas mais divertidas de toda a minha existência: retirando-se a touquinha da Velha e colocando-a sobre seu rosto, voilá, um lobo! Quer dizer, melhor, muito melhor do que um lobo, O LOBO MAU VESTIDO DE VOVÓ!

Pra uma criança de imaginação fértil e mente subversiva (que normalmente torcia para os vilões dos desenhos animados), imaginem a alegria que foi ter ali um dos maiores ícones da maldade, com toda a sua flexibilidade intelectual e moral, usando um vestido azul marinho de bolinhas brancas e óculos de armação redonda. Finalmente, de uma vez por todas, o lobo podia comer a Vovó, a Chapéuzinho, o Caçador, as Barbies, o Duende Pelado do cabelo verde e quem mais ele quisesse, quando ele quisesse e usando a roupa que ele quisesse (desde que fosse o vestido azul).