segunda-feira, 26 de julho de 2010

Vocabulário Pernambucano

*Texto feito para o blog Carnavalizemos, de Circe Ferrario.  A proposta do blog era apresentar Pernambuco a umas amigas paulistas que vinham passar o carnaval 2010 por aqui.

Abestalhado é tipo bestaabiloladoleso,tabacudomongol, mamão mesmo. Mas mamão é mais pesado, cuidado. Na dúvida, e já com alguma intimidade, diga tabacudo – tipo boludo, do castellano. Há quem diga, ainda nos tempos de hoje, abigobal - mas ai é gíria antiga já. Isso tudo é diferente de cabeçudo, gente teimosa, que é diferente de cabeçoide, gente metida a cult que frequenta Cinema do Parque e Apolo e quer ficar por dentro dos cenosos – é que Cinema da Fundação já tá pop demais. Todas essas cabeças são diferentes de cabeção, que é gente com cabeça grande mesmo. Tá, não tão diferente porque, dependendo do uso, cabeção pode ser tipo tabacudo, bobo, que é diferente de João-bobo - que é aquele boneco que você bate e ele volta, bate e ele volta, sabe qual é?
Falando em João, esse nome é bem comum por aqui. Como José, Zé, Zezin, Josefa, Zefa, Zefinha, Maria, Mariinha, Marinete, Nildete, Detinha, Tinha, na verdade, a gente aqui bota tudo no diminutivo: painho, mainha, voinho, voinha massinha. Massinha vem de massa, que quer dizer legal, bacana, xuxu. Mas massa também que dizer outro tipo de massa, aquele cigarrinho de artista, beck, dola, chero, parada, fininho (mas que, dependendo da habilidade, da experiência e/ou da ansiedade mesmo, nem precisa ser tão fino assim). Ai, se você tem um desses, você tá de cima, se num tem tá de baixo, se já puxou tá lombrado, se puxou mto tá fritado (mas, assim, normalmente não se fica fritado de massa - tem que ser sequela grande ai), e, no dia seguinte, sempre bate aquela larica básica. Mas assim, fritar também pode ser se jogar na pista e dançar loucamente, pode ser fritar no sol porque não passou sundown, essas coisas.
As coisas aqui constumam ter muitos significados e a palavra Coisa substitui todas elas: vou ali naquela coisa, ou naquele coisa, ou naquele coiso, tô coisando uma coisinha aqui, que coisa, neh? Também se usa muito Negócio para um objeto não identificado: pega esse negócio, trás aquele negócio, sabe o negócio que a gente falou ontem…? É, eu sei, já devo tá causando um rebuliço na tua cabeça né? Mas fique peixe, tem um bocado, um mói, uma danação de coisa ainda por contar.
Por exemplo, se jorgar, que eu já tinha falado antes, é tipo se desprender, se lançar na vida, ser desavergonhado, sem medo de se mostrar, que é diferente de se amostrar – porque amostração é negativo e ninguém gosta de gente amostrada, visse? Só pra tu se ligar. Então, se jogar é exatamente o oposto de bueiro porque bueiro é fossa braba, normalmente de dor de amor – que pode ser platonismo ou gaia mesmo. O estado de bueiro também pode ter sido por causa de um  do boyzinho ou da boyzinha lá. Ou pode ser a falta de boyzinhos ou boyzinhas, a eterna falta deles. Então, quem vive no bueiro se chama emo. Esse povo, inclusive, merece mesmo um “pedala robinho” pra ver se toma jeitoJeito também é uma palavra esquisita. Uma pessoa pode ser jeitosa, que quer dizer bem apessoada, pode dar um jeito no pé, num quebrou, mas deu um jeito, saca?, e tem gente que precisa tomar jeito na vida, tipo esse povo emo ai. Pois é, aqui na minha terra pra tudo dá-se um jeito, é só deixar de onda e levar as coisas na moral.
Ah, já ia esquecendo umas expressões fundamentais do vocabulário pernambucano: fodado caralho. Então, do caralho é só quando a coisa é Do caralho mesmo, tipo fuderosa! É complicado explicar do caralho porque não existe nenhum termo no vocabulário brasileiro que alcance tamanho esplendor. Então, uma coisa do caralho é do caralho e ponto. Deu pra entender, né?
Se do caralho foi complicado, foda fudeu tudo. Tudo começa porque foda é adjetivo (foi fodafudidofodão), substantivo (a foda), verbo (foder, tipo “fodeu com a minha vida” ou “me fodi hoje”) e ainda pode superlativizar as coisas (fodíssimofodásticofuderosofuderozérrimo, e por ai vai). E assim, ele pode ser positivo ou negativo, depende sempre da construção frasal e da intenção de seu interlocutor. O que salva essa humilde linguista amadora é que o termo foda e suas ramificações não é exclusivo das pernambucanidades. E, provavelmente, vocês já devem saber usá-lo em algumas versões. As demais, vocês vão aprendendo com a convivência. É foda, eu sei. Mas, fazer o quê?
Tem outros termos importantes, e bem mais simples, da cultura breguística como os cafuçus, as piriguetes e as rarius. Cafuçus, ou cafusús, ou cafussus, a grafia é o menos importente, é aquele tipo de macho peão de obra, suado, de barba, cabelo no peito e camisa regata. Cafuçu não é usado, exclusivamente pra peão de obra carteira assinada. A cafuçuzisse é uma coisa que tá na essência, mesmo que o sujeto use Givenchi, não tem jeito. É importante dizer que cafuçu é diferente de cafa, que quer dizer cafajeste. Entenda assim: cafuçu is a way of wear e cafa is a way of life. Pode ter cafuçu cafa (e normalmente eles são). Mas não vamos generalizar, neh? Dá um crédito ai. Já tem pouco homem nessa cidade…
Quanto às piriguetes e as rarius, elas são as boyzinhas dos cafuçus. Eu ainda to entendendo direito essa parte maaasss, eu acho que as rarius são as mulheres mesmo e as piriguetes as concorrentes. Mas não levem isso tão a sério, é só uma teoria minha. Mas assim, ambam são ousadas, usam roupa apertada, colorida ou de oncinha, tamanco, kollene no cabelo, batom vermelho e vai pro Clube Internacional todo sábado de brega.
Bom, tem as palavrinhas dos olindences também, tipo pintinho. E aqueles tocos da calçada que aqui se chama "puta que pariu" ou "eita porra". Mas assim, é o tipo da coisa… se eu for falar tudo tudo, não vai sobrar margem de novidades pra quando vocês chegarem. Tirando que esse post já tá muito grande eu preciso trabalhar. Então assim, só pra terminar, pra confirmar tudo, você diz: com certeza! E, dependendo da receptividade, vaza ou se joga.