segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Uma verdadeira dama


Ontem acordei querendo a minha cama. Aquela distante alguns milhares de quilômetros, com o colchão duro demais naquele quarto pequeno lotado de caixas com meus cadernos do colégio, textos da faculdade, bichos de pelúcia canadenses e pertences valiosos e impossíveis de descartar que já escaparam da minha memória.
Não estou acostumada a querer essa cama e suspeito que o mal-estar estomacal, atualmente o maior problema diplomático entre Brasil e Turquia, seja o grande culpado dessa vontade que, convenhamos, já passou.
O 5º Congresso Mundial da Juventude tem uns 1200 delegados de uns 150 países. Muitas floras intestinais estão padecendo com o intercâmbio bacteriano, mas a delegação brasileira parece ter sido especialmente afetada pelo choque cultural. Somos apenas 11, mas mais da metade agora tem como tema majoritário de conversas o estado físico e emocional dos respectivos intestinos. Trocamos confidências, abraços e dicas durante as refeições ou pelos corredores.
A revolta delgada e grossa ganhou fôlego no momento menos oportuno: os projetos de ação. Cada “aile” (família nas quais os delegados foram divididos) viajaria para um canto diferente na Turquia durante quatro dias para trabalhar voluntariamente em projetos locais. Por motivos de força maior, quase todos os brasileiros tiveram que desistir da ideia de passar várias horas dentro de um ônibus sem banheiro.
A família Kestane Sekeri, à qual pertenço, saiu de Istambul e veio para Manisa, uma cidade perto do Mar Egeo. Fomos batizados com o nome de uma comida que antes haviam dito que era doce, mas depois explicaram que era salgada. Estivemos dentro de um ônibus das 9h às 17h, com direito a cruzar o Mar de Mármara em uma balsa e parar em um shopping mais sofisticado que o Graal para almoçar. Encontrei um purê de batatas providencial e passei o dia bebendo Coca-Cola, a indicação do meu pai para combater a desidratação.
Mas por aqui não faltam remédios caseiros que garantem ser tiro e queda. Quase topei comer uma colher de chá de café turco em pó com limão, mas preferi uma pílula de carvão e o combo aspirina+refrigerante, ainda que isso tenha me custado um discurso dos esquerdistas radicais sobre como a Coca-Cola é tão cruel que é impossível que ela possa me fazer bem. Não entendi direito qual é a mágica do carvão, mas dizem que ele “absorve tudo”.
Tanta coisa interessante para dizer sobre a Turquia e eu aqui compartilhando detalhes sobre cocô...
--Bônus: cinco parágrafos soltos que não mencionam dejetos sólidos nem líquidos—
Istambul tem 2.500 mesquitas. Todas elas se fazem ouvir pelo menos 5 ou 6 vezes ao dia, nos horários em que os muçulmanos devem parar o que estão fazendo e rezar em direção a Meca. Que coincidência, acaba de começar o chamado do último horário de reza.
Em Manisa somos 24 pessoas dos seguintes países: Brasil, Canadá, EUA, Argentina, Bangladesh, Marrocos, Alemanha, Albânia-Itália, Paquistão, Egito, Palestina, Iêmen, Polônia, Nigéria, Geórgia, Austrália, Nepal. Devo ter esquecido alguém.
O café-da-manhã inclui tomate e pepino. Todo. Santo. Dia. De vez em quando comemos batata frita nas três principais refeições. Comíamos, é claro, mas prometi não abordar esse assunto.
Meu turco ainda vai me levar longe. Sei dizer “olá”, “tudo bem?”, “meu nome é Carolina”, “eu sou do Brasil”, “eu sou jornalista” e, por fim, “eu não sei falar turco”. É o suficiente para ganhar a simpatia dos seguranças do campus e motoristas de ônibus, além de descontos em lojas.
Domingo quase dei de presente para o meu pai um genro argentino. Sebastián e eu havíamos sido escalados para o papel de noivos num casamento típico turco. No fim, para evitar ensaios, trocaram os noivos e fomos só coadjuvantes suados (suspeitamos que os casamentos só acontecem no inverno, dada a quantidade de peças de roupas nas quais fomos enfiados). Papai, pode respirar aliviado!