quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O menino vidente da Bahia

Numa pequena cidade do interior da Bahia, em meados do século XIX, um menino de apenas 11 anos descobriu sem querer, durante um dever de casa da escola, que era dotado de um curioso talento. Ele era capaz de prever para os próximos sete dias, com absoluta precisão, se iria ou não chover.

A notícia se espalhou rapidamente pelo colégio graças a iniciativa do seu melhor amigo, que o fazia postar toda semana, no mural destinado aos estudantes da quarta série, a previsão do tempo para os sete dias seguintes. Os alunos das outras séries também passaram a acompanhar as previsões do mural e o melhor amigo do menino fazia questão de fazer um "c" de certo, como se estivesse corrigindo uma prova, no fim de cada dia. Em questão de três ou quatro meses, um grupo de meteorologistas de Salvador fez questão de conhecer pessoalmente o garoto com o intuito de desvendar quais técnicas ele empregava nas suas previsões. Vale lembrar que os meteorologistas - brasileiros e estrangeiros - mal conseguem prever o tempo para as próximas duas horas, imagine então sete dias.

- Minha professora de português me disse que vocês analisam a temperatura, a pressão atmosférica e a umidade do ar. Mas eu nem sei o que significa pressão atmosférica. Acho que vocês já podem empacotar as suas malas e ir embora desse fim de mundo. Não tenho nada para oferecer a vocês.

- O que você quer dizer com isso? - perguntou um dos meteorologistas.

- Como assim, meu chapa? - retrucou o garoto.

- Você nem olha para o céu para fazer as suas previsões?

- Não. Eu simplesmente sei o que vai acontecer. Me coloque numa sala escura e fechada que eu vou conseguir prever o tempo do mesmo jeito.

- Impressionante - disse outro meteorologista, perplexo com as declarações.

Quando o menino estava com 17 anos, manifestou o seu desejo de fazer uma faculdade de direito. Então o seu pai aconselhou-o a se mudar para o Rio de Janeiro, onde teria um futuro muito mais promissor do que se continuasse a morar na Bahia.

Além de adivinhador, o menino era muito bom aluno e passou sem dificuldade para o melhor curso de direito do Rio. Por mais que ele só tenha demonstrado o seu talento premonitório aos seus amigos mais próximos, a notícia correu pela faculdade, de modo que a situação abaixo se tornou frequente:

- Não precisa se preocupar, meu caro, não vai chover no fim de semana.

- Como você sabe?

- O Gustavinho disse que não vai chover.

- Tá, e daí? Quem é Gustavinho?

- Ele é vidente.

As explicações continuaram em todos os lugares possíveis, no refeitório da universidade, na farmácia, no banco, na praça.

- Ele é vidente, por isso não vai chover.

- É vidente, vai chover.

- Vidente não existe.

- É vidente? Por isso vai chover?

- Exatamente. É vidente que vai chover. Quero dizer, vai chover porque ele é vidente.

Nos meses seguintes, ao invés de dizer que "amanhã não vai chover porque o menino vidente disse que não vai", as pessoas passaram a dizer "é vidente que não vai chover", como uma maneira de simplificar a explicação e como também uma forma implícita de dizer que aquela previsão tinha o respaldo do menino vidente, não era uma opinião de um leigo no assunto meteorológico.

Com o passar dos anos, o termo "é vidente" passou a ser empregado em outras situações como no caso de um filho respondendo para a mãe, "é vidente que eu fiz o dever de casa". Apesar daquela informação não conter o respaldo do menino vidente, o garoto estava dizendo para a mãe que era claro, óbvio, que ele tinha feito o dever de casa.

Esta é a verdadeira origem da palavra "evidente". Além do que, procurei no Google, e não encontrei nada. Melhor esta história do que nenhuma, não acham?