sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Sobre o que não ganhei de herança ou: sobre o que minha mãe não quis me dar




Sempre admirei a luz da minha mãe. Semelhante à luz que ela deixa entrar quando abre todas as portas e janelas da nossa casa, para que a claridade tome conta de tudo. A mesma claridade quando ela me dá uma solução para qualquer problema, desde o choro do bebê, o cabelo ressecado ou a cólica menstrual. Tem sempre uma resposta para tudo, mesmo que seja a mais rápida e nem sempre cabível à dificuldade.
Talvez essa não seja uma qualidade intrínseca a minha mãe, mas a todas deste universo. E pode ser que pelo fato de ainda não ser mãe, não me encaixo nesse perfil. E estou longe de me orgulhar disso. Desde pequena eu tenho desapontado a minha mãe, por não ter alguns de seus talentos. Estou longe de ter sua mão santa, seja na cozinha ou no manuseio de papéis e fitas. Sempre fiquei embasbacada como ela conseguia fazer qualquer pacote de presente, por mais disforme que fosse o conteúdo. E o resultado sempre era uma obra de arte. Dê uma fita e uma dúzia de enfeites para minha mãe e você verá a mais bela árvore de natal de todos os tempos.
Por isso deve intrigar-lhe o fato de que eu seja sua filha. Eu demorei a aprender a amarrar o cadarço. A primeira vez que fiz arroz, cozinhei meia xícara para cinco pessoas. Eu nem sei regar as plantas direito. Minhas roupas estão sempre encardidas ou furadas, porque (droga, odeio admitir), mal sei dar ponto em roupa. Por isso meu quarto e minha casa, no que depende de mim, está sempre na maior desordem. Talvez, por isso, minha vida quase sempre está em desordem.
Esses tempos presenciei minha mãe arrumar uma mesa de aniversário com três papéis e alguns balões. Em dez minutos de estica, puxa, ajeita e cola, tivemos uma mesa que não só chamava a atenção dos convidados, mas deixava o ambiente com um toque todo especial. E esse sempre foi seu trunfo. Com suas mãos de gênio, ela sabe mostrar que passou por ali. Quando ela ia me visitar, mudava todas as coisas de lugar e eu relutava um pouco em aceitar suas alterações. Pouco depois, eu não conseguia mais deixar nada do jeito anterior.
Hoje percebo que não se trata apenas de eu não ter recebido como herança genética seus dons, mas porque eles nunca tenham sido estimulados como deveriam. E atribuo parte da culpa a minha mãe. De um jeito só seu, sutilmente, ela me fez ao longo da vida trilhar um caminho diferente do dela. Ela me criou, por mais estranho que pareça, para ser uma versão sua às avessas, uma cópia, sim, mas daquelas dessemelhantes. Como um reflexo no espelho, que ergue a mão direita quando levantamos a esquerda.

E se assim for, mãe, eu espero estar te orgulhando.