quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Vida loka vida

A cena é conhecida e se repete inúmeras vezes em álbuns do Orkut. O adolescente segura orgulhosamente uma arma e faz cara de “mau” para a câmera. Sem camisa como os colírios da Capricho, exibe um tanquinho esculpido pela falta de comida na mesa e pelo consumo regular de drogas. A privação dupla (de recursos e de noção) lhes proporciona o que playboyzinhos tentam conquistar desfilando seus Nike Shox na academia.

Antes do clique, o cenário é cuidadosamente preparado. As paredes com tinta descascada nem incomodam. Em primeiro plano, várias cédulas estão dispostas sobre a mesa. Da mesma forma que policiais compõem palavras com a munição apreendida, os moleques desenham “vida loka” com notas meio amarfanhadas de 2, 5 e 10. Uma solidária cédula de 50 é usada na perninha do “k”. Após a postagem na rede social, a legenda “É nóis” completa o momento que permanecerá muito além da vida breve de seus protagonistas.

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– Porra, você não entende que esse tipo de evento é importante para a minha carreira? Fui promovido no mês passado e não posso perder a oportunidade de mostrar para todos que agora estou em outro nível.
– Eu sei, amor, mas gastar R$ 8 mil num terno de grife com a mensalidade da escola das crianças atrasada não é um contrassenso?
– Se você fosse mais inteligente e tivesse um pouco de visão, saberia que é justamente por causa do futuro delas que às vezes precisamos fazer certos investimentos.
– Acontece que é a burra da casa que precisa mentir a cada ligação do gerente do banco para avisar que o cheque especial tá estourado. Sem falar nas parcelas vencidas do financiamento do carro. Imagine a vergonha se um dia tiver de devolver seu xodó importado para a agência...
– Eles que se atrevam... Nunca vou esquecer a cara dos outros gerentes quando viram nosso carro novo. Eu não sou foda?

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Bonés nas mãos, os amigos rezam um pai-nosso no cemitério da periferia na hora de se despedir do companheiro. Do outro lado da cidade, o jazigo da família ganha mais um hóspede. Os dois universos distintos aparecem misturados na reportagem sobre o assalto que terminou em tragédia. Três balas no executivo e, minutos depois, 6 azeitonas da polícia mandaram mais um presunto juvenil para o inferno.

Na verdade, os pipocos apenas consumaram mortes que já tinham acontecido há muito tempo. Sem possibilidade de sonhar, o vida loka da favela decidiu buscar atalhos e partir para o “tudo ou nada”. Momentos fugazes de curtição antes de virar mais um número nas estatísticas. “Bandido bom é bandido morto”, respirou aliviada boa parte dos leitores.

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Casamento destruído, filhos com dinheiro no bolso para compensar a falta de carinho, nenhuma amizade verdadeira na empresa após incontáveis expedientes para ascender na carreira... Um autêntico vida loka em versão corporativa. Valores trocados, escolhas malfeitas. No fundo (ou seria melhor “no raso”?), a mesma busca de aparentar algo que não é.

Tivesse mesmo a tal da visão que cobrava da esposa, teria enxergado que profissionalmente não passava de uma prostituta. Em vez do corpo, alugava seu tempo para a empresa obter lucros obscenos. Quantas foram as vezes que acedeu aos desejos do chefe fingindo prazer? A satisfação que exibia nas reuniões era tão real quanto o sentimento de uma puta chamando o cliente de “amorzinho”. Vida de bunda sonhando com a Caras. “Ninguém vai nos perdoar... nosso crime não compensa.”