sábado, 9 de outubro de 2010

Meu testamento


Quando eu morrer
(não faça essa cara, já está decidido, não importa o que eu faça ou deixe de fazer, minha morte é certa),
não chore.
Saiba que morrer me deixará feliz, pois finalmente conquistarei o meu maior sonho: o sossego.

Enquanto eu descanso, eis o que desejo que façam com o que deixarei para trás:

Queime
Tudo o que puder pegar fogo e desaparecer em cinzas.
Isso inclui meu corpo. Primeiro, recicle-o ao máximo. Olhos, sonhos, órgãos, cabelos, cicatrizes, unhas, ideias. Depois, queime o resto sem dó nem lágrima. Não se preocupe em transportar-me até um local específico. Espalhe-me em qualquer sopro de vento a céu aberto, porque de lá eu saberei aonde ir.
Faça dos meus cadernos, cartas, postais e fotos uma fogueira. Proíbo-te de ler o que está escrito neles. Eram meus, e depois de mim devem virar brisa.

Doe
Além dos meus órgãos, as roupas, livros, sapatos, móveis e projetos que nunca saíram do papel, para alguém que fará melhor uso deles do que eu.

Delete
O que eu não tiver deletado ainda. Se, como ocorreu com Santiago, minha morte for anunciada, pule essa etapa, pois eu já a terei cumprido. Não deixe, porém de me avisar, caso você saiba que vou morrer.
Esqueça-se da pena de apagar centenas de imagens do meu Facebook. O mundo tem fotos demais. Também tem tweets demais, por isso delete os meus também.
Meus blogs... Faça o mesmo com eles. Todos eles. Menos esse.

Lembre-se
De não se revoltar se eu morrer uma morte violenta, principalmente se ela tiver sido intencionalmente provocada por outra pessoa. De maneira alguma brade por vingança. Não cogite roubar um olho para substituir o meu ou defender leis mais duras como a pena de morte ou a redução da idade penal. Eu sou contra tudo isso e recuso que sujem meu nome covardemente, quando eu já não mais poderei protestar.
De plantar uma árvore em minha homenagem, em algum lugar onde ela possa crescer e produzir oxigênio por algumas centenas de anos. Eis aí algo mais compatível com o meu nome.
De que não sentirei a mínima falta das vidas que levei nesses pelo menos 28 anos e quatro meses. Sobrevivi aos maus momentos. E aos bons também. A todos eles, menos um, o que finalmente me matará.
De que vivi do jeito que queria viver. Reencarnei durante a mesma vida todas as vidas que consegui. Levei meus defeitos em todas elas, e felizmente deixei alguns pelo caminho. Sabendo que seria imposível me libertar de todos, abracei-os, adotei-os como parte de mim, pessoa imperfeita. Pessoa real.
De mim.