sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Turno da Noite

De Luiz Adriano Lima 


Receber o convite para participar do Blog das 30 Pessoas foi extremamente gratificante. Logo, fiquei extremamente extasiado – e ainda estou –, mas logo me veio a dúvida: sobre o que eu escreveria? E, evidentemente, a resposta mais lógica era aquela em que eu componho um texto no qual eu me apresento, comentando basicamente sobre as coisas das quais eu gosto, quais me satisfazem, que programas me entretêm. Penso, porém, que começar desse modo seria muito limitador e me descrever de modo objetivo seria colocar a mim mesmo como uma figura plana e simples – o que definitivamente nenhuma pessoa é.


Opto por começar de outro modo. Posso, ao longo do tempo que escrever aqui, apresentar várias vertentes minhas e, assim, vocês leitores vão juntando as várias informações e montando a minha personalidade. Tendo
optado por isso, veio-me outra dúvida e essa foi bem mais cortante. Escrever sobre o que eu gosto ou sobre o que não me agrada? Escrever sobre o mais óbvio ou sobre o mais oculto de mim? A solução veio quando eu e o Pedro, um colega de quem gosto muito, conversávamos de madrugada sobre diversos assuntos e eu concluí que aquele momento – aquela conversa à meia-luz – me punha num estado inerte de êxtase.


Há algo nas conversas noturnas que as diferem das conversas que temos ao longo do dia. Nas conversas que ocorrem depois da meia-noite, os interlocutores parecem mais suscetíveis a falar aquilo que realmente desejam, sem amarras sociais ou preocupações com semântica, as quais usualmente estão presentes. Até porque, às três horas da manhã, se conversa apenas com quem realmente se quer conversar – e isso torna qualquer diálogo bem mais intimista e prazeroso. Os tópicos também são mais interessantes: eles parecem consideravelmente mais próximos dos falantes. De madrugada, os assuntos que surgem afloram, vêm de dentro, expõem-se de maneira mais pungente – seja o gosto por arte, por sexo, pela natureza, pela própria vida; tudo isso flui mais facilmente. Talvez esse fluido constante se deva ao sono que se aproxima e à conseqüente necessidade de afugentá-lo. Ou talvez simplesmente aconteça pela diversão que há em conversar no horário em que as outras pessoas dormem (e, portanto, ausentam os seu julgamentos).

Não me restam dúvidas de que são essas conversas que me motivam a entrar no MSN e ficar até tarde acordado. Há outros motivos, evidentemente; mas decerto poder conversar abertamente é o que me instiga – e aposto que instiga a muitas outras pessoas. Não posso terminar esse texto sem agradecer a duas pessoas muitos especiais, que tornam as minhas noites mais interessantes: Pedro e Marcelo. Ambos me aprazem quando dedicam suas madrugadas a conversar comigo e, com cada um, tenho longas conversações, quase intermináveis, sobre diversos assuntos. Não anseio pelo término disso, quero, aliás, que dure muito mais e que conversemos ainda por um longo tempo – seja pessoalmente ou virtualmente. Há definitivamente aqueles que apreciam o dia – eu o aprecio –, mas penso que é o turno da noite que me mais me faz querer viver.