quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O enterro de um homem coerente (por Gilberto Amendola)


Por Gilberto Amendola 


Morreu um coerente. Um sujeito que teve sempre a mesma certeza - do cordão umbilical até o derradeiro suspiro. Um homem sem esquinas na alma, sem becos obscuros desembocando no esgoto do peito. Morreu um triste.
Os parentes se aproximavam do caixão sem crer. Não havia um sinal de dor, uma marca, um corte ou qualquer outro indício da morte que ali se apresentava. Seu corpo inerte não era diferente daquele que até ontem gozava de boa (eu diria, perfeita) saúde.
Amigos? Uns dois ou três - que eram mais frutos de uma conveniência corporativa (subalternos ou lambe-botas) do que de laços fraternais. O morto, o coerente, não perdia tempo regando a flor errática da amizade, que além de dar trabalho não traz nenhuma garantia de boa colheita.
Se algum amor chorou por ele? Só o da própria mãe - que é compulsório e, que me perdoem as mães, não conta. Uma mãe é capaz de amar o pior canalha. Mas, justiça seja feita, o coerente nunca foi um canalha. Seria demasiado humano para os padrões dele.
O coerente, como se percebe agora, sempre manteve uma distância segura de seus pares. Nunca se envolveu em nada que representasse uma possibilidade de dúvida. Nunca quis saber de alguém que dissesse 'A' - quando acreditava que o correto seria ouvir 'B'. O coerente não alimentava baboseiras. Era uma linha reta em direção ao precipício do entendimento.
Não se tem notícia de lama em seus sapatos; de chicletes em seu cabelo ou cárie em seus dentes - não era muito de comer doces, dizem. Se não era perfeito, ora bolas, que criem uma outra definição para perfeição.
Mas a vida, que não é feita para ser poupada, deu o troco. Por infelicidade, o pobre rapaz morreu cedo, com o bolso cheio de medalhas, honras ao mérito e outras quinquilharias de gente de bem. Não se sabe se foi vítima de alguma doença extravagante e sacana - dessas que só matam pessoas extremamente limpas e educadas.
Não sofreu. Ou, talvez, tenha sofrido. A questão é que o coerente não sabia o que era e o que não era sofrer. Sabia o que era uma gripe ou uma pequena enxaqueca. Agora, sofrimento, ele não sabia não.
Morreu dormindo. Vai saber se algum dia esteve acordado? Mas se foi dormindo. E neste intervalo entre a vida e a morte, o corpo rogou por um sonho. E o que aconteceu? O coerente se viu mergulhado em uma palidez abissal, dando braçadas desconexas no ar. Era pura comédia física. Aliás, o que é a vida se não uma comédia física.
Enfim, foi o sonho possível de um homem coerente. Ele mesmo teria gargalhado se não fosse esteticamente incorreto gargalhar. Vamos dizer que o coerente sorriu ironicamente, tal qual um lorde inglês (melhor assim).
Mas eis que o coerente morreu. O caixão foi fechado. O corpo desceu. Os presentes fizeram aquele ar de tristeza, tudo de praxe, tudo coerente com o sujeito coerente que tinha partido desta para uma melhor.
E todos foram embora daquele cemitério: abraçaram suas mulheres, beijaram seus maridos, usaram seus iPhones, limparam seus pés de barro e pegaram seus carros. Na primeira curva depois do portão já não havia mais nada para ser dito sobre o homem coerente. Todo dia morre um. E ninguém (ou quase ninguém) liga.
Enquanto o esquecimento varria a antessala do pensamento, os vermes, sempre eles, rodeavam o corpo do homem coerente. Aquilo, que se pretendia um banquete, parecia indigesto.
Os vermes não farejaram algo apetitoso, algo suculento, algo que tenha sido embebido na cachaça da vida. Era molho ruim. Comida sem graça. Nem os vermes quiseram petiscar o defunto mais coerente da história.
Acho que o homem coerente nunca vai apodrecer.