terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Origamis transcendentais de guardanapo (Por Gilberto Amendola)

Por Gilberto Amendola

Noves fora, Carolina deixou um retrato.  Nada escrito do outro lado.  Nem marca de batom.
Procurei outra pista.
Alguma coisa escrita com creme de barbear no espelho do banheiro.  Ou papelzinho pendurado no ímã da geladeira.
Nada.  Nem cheiro.
Acho que só tem disso no cinema.  Vida real é outra esquema.
Carolina, dos olhos verdes da cor de um marca texto, já está fora deste contexto.  Há tempos.
Foi-se.
Feito brasa de cigarro quando chega ao fim.
No celular, a última mensagem tinha sido enviada ontem: " Atraso 30 mim, ok?  Bjs".
Lembro bem.
Sou eu, ali, entretido com guardanapos, fingindo origamis transcendentais na mesa do restaurante.  Meio que dividindo minha atenção entre as flores desmilinguidas ao redor da cesta de pães e o relógio démodé pregado na parede.
Ela atrasou duas horas.  Ou quase isso.  Não importa.
Mas quando Carolina chegou o que era irritação virou confete.  Ela estava lá - e meu tempo desperdiçado não tinha o menor valor.
Carolina riu dos meus origamis.
Foi ao banheiro antes de se sentar.  Voltou com os olhos vermelhos e agitada.  Pediu água com gás e aceitou minha sugestão de vinho sem muita empolgação.  Estava com pouca fome, mas iria tentar o salmão. Eu também.
Falamos do último disco da Suzanne Vega; dos velhos poemas de Paulo Leminski e do meu talento para origamis pós-modernos.  De resto, silêncios e comentários sobre a comida, o vinho e o desleixo do garçom.  Ela sugeriu terminar a noite ouvindo jazz no meu apartamento.  Eu disse sim - e agradeci a Deus pela graça alcançada.
O que aconteceu depois eu já contei.  De manhã, só me restou o retrato de Carolina - e a certeza imprecisa de que de nada adiantaria revirar a casa, o bairro, a cidade ou o planeta.
Ela tinha ido embora.
Me esforcei em fingir que tudo estava no seu devido lugar.
Banho, armário, café forte, carro, trabalho, reunião e um desejo de permanecer inconsciente durante um mês inteiro.
Era como se eu tivesse sido tocado pela bruxa mais agourenta.
Vai ver Carolina teve um apagão; vai ver bateu a cabeça no portão; vai ver morreu num acidente de caminhão; vai ver já não está nem mais aqui - e foi morar num país de rima boba, um Japão da vida.  Talvez ela nunca tenha existido.
Mas o retrato, que de agora em diante seria transformado em um valoroso porta-copo, era a prova cabal de que Carolina era real.  Fui eu quem, num momento de ousadia, soltei um 'psiu' e tirei a fotografia.
Eu captei num clique só.  Ela olhando pra trás - virando o pescoço num relance e olhando pra dentro da minha câmera.  Bati a foto e senti o chão do parque desaparecer debaixo do meu tênis de corrida.  Fiquei sem graça.
Mas ela riu.
"Manda essa foto pra mim? "
Com o e-mail da menina, que aquela altura já era Carolina, fiz o que me cabia.  Primeiro fomos correr no mesmo parque, depois um filme do Woody Allen e, por fim, o jantar.  Aquele em que fui surpreendido fazendo origamis transcendentais (fiz um cisne caolho e um girassol sem alma).
Éramos dois estranhos: mesmo quando sugeriu terminar a noite no meu apartamento; mesmo quando se interessou pela minha playlist de músicas tristes; mesmo quando se atirou na minha cama como quem mergulha em uma piscina de bolinhas.
Carolina era surreal.
Tentei o celular.  Só por desencargo de consciência.
Nada.
Voltei ao parque.
Tirei fotos.
Esperei sentado - fazendo origamis transcendentais.
Nada.  Nunca mais.