quinta-feira, 29 de setembro de 2011

" A música me ensina profundamente uma audácia no mundo de sentir-se a si mesmo "

Ainda tenho tempo, mesmo atrasada escrevo. Escrevo por necessidade, por liberdade e amor. Amor que só eu entendo, amor pela vida, amor simplesmente. Escrevo por ser minha forma de liberdade. Por vezes, bem melhores quando escritas, rascunhadas em papéis que não rasgam, assim as palavras me cabem melhor. Sei lá, a tempos não sentia isso, vontade de escrever, assim e aqui. Hoje, diferente dos outros dias a vontade bateu, cresceu, vingou e está aqui, em ação. Então escrevo...

E como sempre, é na hora, é o que é, é o que eu sinto, é o que vem a mente. E lendo mais um livro da Lispector (só pra variar um pouco) Um Sopro de Vida me deparei com a frase que se fez título. Parei, pensei, lembrei. E como sempre a salve, salve tem toda razão, tenho aprendido tanto com a música, com a disposição em ouvir ou melhor saber ouvir ou aprender a escutar. Por que embora não pareça existe uma diferença enorme entre ouvir e escutar. Mas isto é história, assunto de Assistente Social e agora não tá!? Noutra vez explico, hoje é música, a importância da música, o espaço ocupado pela música.

Eu não sei se alguém consegue, mas eu não consigo ficar um dia sequer sem ouvir alguma música. O meu dia começa e termina com música. Desde São Sebastião da Grama, quando meu pai nos acordava com barulho de rádio. É de lei, meu pai ao acordar a primeira coisa a fazer é ligar o rádio, e ouvir música. Toma banho, faz barba, penteia o fiapos de cabelo, com rádio ligado, agora mais muderninho é cd. Nunca desde o tempo que convivi com ele a rotina foi alterada. E dali nos ouvidos Roberto Carlos, Amado Bastista, Fagner, Wando (ainda existe? joga calcinha pra mulherada? afi) Chitãos e Chororos, Zezés di Carmargos e duplas e mais duplas e o bendito do forró e perolas mil. De todos o que mais lembro é Tetê Espíndola e aquela música horrível que na voz dela, voz mufina é feia demais "Escrito nas Estrelas", enfim nenhum apreço as canções do pai, que até hoje é alegria de toda manhã rs.

Vamos para a mãe, na fita cassete era Roberto Carlos, Simone, Elton John, David Bowie e uma série de "cantores internacionais" que não lembro nome, mas só de ouvir na hora sai "ahhh minha mãe adora essa canção/cantor rsrsr". Ok, melhorou, tinha o rádio também e aquela coisa hiper brega de Love Sons Cidades, lê a carta e tal, e chora as pitangas do coração e bláblá e aquela cara de quem viu o pássaro fugir, o suspiro apertado no peito e "ufaaaaa" que romântico! Tinha a Alpha FM, Nova FM, Antena 1 e não sei quantas mais, mas não deu de novo!

Crescendo, crescendo, ouvindo, escutando, escutando, ouvindo. Cidades e mil e uma mudanças, feito nômade sabe? Filha de caseiro é assim mesmo, não tem chão, casa, não tem segurança é mudança. Chegamos em Caraguatatuba e a vizinha e suas músicas estranhas, Gal Costa, Marina Lima e Marisa Monte e mais outras tantas. Espiava do buraco que tinha no muro e o começo do ouvir/escutar algo que muito agradava. A ponto de chegar da escola, e ir para o muro, prá saber que música ela estava escutando ou ovindo...passou, não gravei mudei de novo e perdeu-se.

Agora em Diadema, mocinha querendo amigos, agora era de tudo. Toda e qualquer música. Era Rap, Black, House (ainda existe?) Eletrônico e não sei quantos ritmos, músicas possa sonhar. Uma mistura de tudo e nada, classificação zero. O lance era dançar fechar os olhos e ouvir, nada de escutar, era ouvir, ficar perto da caixa de som e deixar aquilo tudo dominar. Talvez por isto, a surdez de hoje, mal de um ouvido. Mudanças de bairros até chegar o Chico, ah Chico, Chico seu Buarque. Escutei, quer dizer ouvi e escutei, gostei e escondi por anos. Ninguém da minha idade ouvia isso, e se eu fosse pega ouvindo, seria o fim. Nada de fins de semana virados, curtindo de tudo. E mais uma vez foi-se, passou, mudei de novo, agora São Bernardo do Campo.

Para quê tudo isso? Pra dizer que não havia classificação e tudo requer paciência, tempo para saber a diferença entre ouvir e escutar. Classificar o que de fato agradava, fazia brisar, sair de mim. Hoje mantenho o hábito do pai, herança boa a gente não nega, mas sem a lista que julgo brega, sem nenhuma das canções da mãe, sem quase nenhuma quando adolescente. Tudo sofrendo uma reviravolta, se transformando e sendo transformado, conhecendo gente e aprendendo a escutar, ouvindo e guardando, e sabendo que isso não para nunca. E hoje morando em São Paulo...

Sempre tem aquela música que lembrou aquela fase, aqueles amigos, aquele tempo. Algumas foram, outras ficaram, outras por vir. Mas sabe o que deixa mais feliz? Saber que hoje aprendi a ouvir e a escutar, mas principalmente "a audácia no mundo de sentir-se a si mesmo" através da música, sendo constantemente alterada, às vezes ouvindo e listando fora, às vezes escutando e listando para vida toda e vice e versa.

E acabou meu tempo. E sim! Mesmo com a mistureba do Rock in Rio, queria estar lá e ouvi-los cantar (só pra mim tá! :)



Coisa Linda !