segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Um velho de ouro com um relógio de luto

Um velho de ouro com um relógio de luto. Era assim que todos descreviam Geraldo na vizinhança desde que sua esposa falecera. O relógio, que foi seu último presente de aniversário à amada, nunca mais sairia de seu punho. Não gostava muito do título "de ouro". Ele nunca gostou muito de dourado. Mas não contestava pois sabia que a intenção era carinhosa.


Todos se preocupavam com Geraldo. Sua esposa sempre foi a pessoa mais querida do bairro. Ela sempre presenteava os vizinhos com os bolos deliciosos que ela adorava confeitar. Os domingos eram disputadíssimos. Eles sempre tinham mais de um convite para almoçar.


Depois da morte da esposa, todo o carinho e preocupação se transferiu para Geraldo. Os vizinhos sabiam a falta que a esposa fazia e preocupavam-se em não deixá-lo sozinho. Passava o dia todo visitando os antigos amigos da esposa. Ele adorava. Sempre chegava em casa com a sensação de saber como a esposa se sentia sendo tão querida.


A noite, em casa, Geraldo trancava todas as portas e janelas, fechava as cortinas, e colocava ao lado da foto da esposa, no criado mudo, o objeto que havia tirado sua vida.


No fundo falso da gaveta Geraldo guardaria para o resto de sua vida seu maior segredo. Um punhal prateado.