sexta-feira, 2 de março de 2012

O taxista


Era uma sexta-feira. Provavelmente 2006. Nessa época eu tinha uma banda de rock chamada Conclave. Estava indo de carro para o ensaio, o guitarrista no banco carona, ouvíamos System of a Down. Diante de uma bifurcação no humaitá, terra do Marcelo Adnet, eu deveria pegar a pista da direita, mas como o carro estava mais para o lado esquerdo, precisei dar uma pequena fechada num taxista que não tinha nada a ver com o meu itinerário. Ok, não foi uma pequena fechada. Foi uma senhora fechada. Mas quem nunca fez uma lambança no trânsito? Até o Ayrton Senna já deve ter feito. Confesso que não vi o táxi, ele entrou no famoso ponto cego do meu retrovisor. Pedi calorosas desculpas com o braço esquerdo erguido para fora da janela, num gesto típico de motoristas que fazem merda no trânsito, ou pelo menos os que assumem os seus erros. Não houve qualquer tipo de contato físico, apenas o "mini heart attack", tanto para ele quanto para mim. O homem, que devia ter uns 40 anos, viu o meu gesto, mas não esboçou qualquer tipo de reação.

Então voltamos a conversar, eu e o guitarrista, sobre o arranjo de uma das músicas do ensaio, como se nada tivesse acontecido. Pouco depois, o taxista emparelha com o nosso carro e simplesmente se joga pra cima de mim como um míssil. Como um piloto kamikaze. Tive que voar com o meu Palio para o lado e quase bati no meio-fio. Acelerei para escapar desse louco, mas ele fez novamente o mesmo gesto doente. Parecia um filme hollywoodiano, só que não tinha dublê.

Diante daquela situação inusitada, resolvi manter uma velocidade bem baixa. Foi assim que conseguimos parar o trânsito na Rua Pinheiro Guimarães, mais ou menos em frente ao bar Saloon 79, que inclusive serviu de palcos para diversas apresentações da minha banda. Estávamos a 40 km/h. Ele estava esperando eu acelerar para dar o bote. É claro que a intenção dele no fim das contas não era colidir com o meu carro, ele só estava querendo me assustar, mas ainda assim, eu tinha que desviar com muita maestria das suas investidas. Enquanto eu proferia todos os palavrões do mundo, o guitarrista ficou o tempo todo mudo, apenas torcendo, em silêncio, para o fim daquela perseguição idiota.

Os outros carros buzinavam impacientes. O taxista continuava sério, compenetrado, apenas esperando o meu movimento para atacar. Meu carro era 1.0, logo, não tinha uma arrancada decente. Era ainda pior que a arrancada do Bowser no Mario Kart, pode acreditar. Não entendo nada de carro, então não sei dizer qual era o carro dele, tampouco sua aceleração. Mas devia ser semelhante à minha. Devia estar na quarta marcha, lancei a primeira, atochei o pé no acelerador como se não houvesse o dia de amanhã, o carro fritava como um ovo estalado, tensão no ar, até que, consegui deixar o louco pra trás. Quando ele estava se aproximando, alguns metros depois, virei à esquerda numa rua qualquer e por muito, mas muito pouco mesmo, não capotei com o carro. Foi um cavalo de pau digno de um comercial da BMW em dunas da África setentrional. Despistamos o taxista para todo e o sempre, chegamos atrasados no ensaio, mas pelo menos com a maravilha sensação de missão cumprida.