sexta-feira, 6 de julho de 2012

A visita (parte 5)

Saiu do banheiro sem lavar as mãos, de calças arriadas, tropeçando em si mesmo. Desabou no sofá. Anos depois, não se lembraria quanto tempo ficou lá, babando, olhando pro nada e lembrando da Ramona. Dos cabelos pretos cacheados, dos olhos castanhos quase sempre semicerrados em expressão de suspeita, do corpo farto acomodado nos sobretudos chiques que ela amava. Uma mistura de detetive britânica vitoriana e prostituta da esquina, ele sempre pensara. Combinação bem-arranjada aquela.

Olhou pra janela. A janela pela qual ele tinha jogado o casaco, o postal picado em pedaços e o relacionamento de anos em uma das primeiras, e também a última, briga que eles tiveram. Nem se lembrava mais do motivo. Levantou-se, caminhou até a janela e, num ímpeto de bêbado, meio berrou e meio cantou:

- RAMONAAA!! SE EU PUDESSE EU TE TRARIA DE VOLTA…

- Acho que isso não será possível – uma voz meio rouca lhe respondeu, com português arranhado de sotaque russo.

Ele se virou, espantado. A sua frente, envolvida em um roupão de seda tão branco quanto a sua pele marcada por sardas, uma mulher ruiva tentava controlar a risada. É claro: ele ainda estava com as calças arriadas.