domingo, 24 de fevereiro de 2013

Dois caminhos

Um
Ao dar um passo para a direita, sentiu que deveria ser direto. Quando teve oportunidade, olhou-a nos olhos e convidou: "Vamos sair daqui?". Ela sorriu, deu mais um gole no copo de vodca com suco. Talvez tentando ganhar tempo para inventar uma desculpa. Mas não. "Vamos". A resposta o atingiu com a ferocidade de um sorriso. Saíram já de mãos dadas. E não se desgrudaram mais. Não de uma maneira grudenta, mas estavam sempre juntos, mesmo quando separados. Haviam virado uma entidade, os amigos diziam. Ninguém imaginava mais um sem o outro. Nem eles. Casaram-se, tiveram dois filhos e provaram que o amor poderia ser dividido e multiplicado ao mesmo tempo. Viveram muitos anos e viveram a maior parte desses anos juntos, que pareciam ter sido todo o tempo deles no mundo.

Outro
Acordou com o pé esquerdo. Só poderia ser isso. Mas, às vezes, os caminhos tortos são os mais corretos. Ao menos era no que queria acreditar, numa tentativa de salvar aquela semana. Ou salvar a si mesmo, depois de tantos erros. Parecia ter encontrado alguém que, finalmente, iria erguê-lo. Não, não literalmente. Bom, também. Pois as últimas tentativas de relacionamentos, muitas delas promovidas por amigos e colegas de trabalho, foram desastrosas no mínimo. Ela, não. Aparentemente sã, inteligente, bem-humorada. Tornara-se cínico demais para apostar suas fichas todas em uma pessoa, mas os outros campos da vida estavam estagnados, sem possibilidades de melhoria. Algo precisava dar certo, e logo. No final, não deu. Ela ainda esperava o retorno do ex-namorado, que partira oito anos antes. Estava perdido na vida e sentia que a vida se perdera em algum momento irrecuperável.