quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Hora do banho


Quando não sou uma burocrata, uma dona de casa ou alguém que finge estudar coisas "sérias" como filosofia, sou uma antropóloga amadora que se dedica a investigar hábitos humanos que para a maioria das pessoas seriam dignos de pouca atenção. O banho é uma dessas práticas que considero curiosíssimas. Para mim, as pessoas se dividem em quatro categorias básicas de acordo com a hora que tomam banho: há aquelas que tomam banho pela manhã, há aquelas que tomam banho à noite, há aquelas que tomam banho de manhã e à noite e, por fim, há aquelas que nunca tomam banho. Claro que há casos que vão além das minhas categorias, mas essas pessoas devem ser consideradas na sua particularidade.

O que devemos ressaltar é que a personalidade das pessoas segue um padrão dentro de cada uma dessas categorias. As pessoas que tomam banho pela manhã alegam dois motivos principais: o banho as desperta e também as deixa limpas e cheirosas para que possam entrar no mundo público, ou seja, ir à escola, ao trabalho ou a qualquer outra atividade que suponha aproximação de corpos. Já as pessoas que preferem o banho noturno defendem a ideia oposta: é preciso ficar limpo para dormir e ocupar o local mais íntimo que é a própria cama. Além disso, o banho seria um momento relaxante para trazer o sono logo e, considerando que dormir em tese não nos suja, acordaríamos igualmente limpos. A terceira categoria, por sua vez, é composta por pessoas que acreditam que é preciso respeitar a higiene no mundo público e no mundo privado, daí que preferem ficar limpinhas duas vezes ao dia. Confesso que admiro essas pessoas pela disposição que têm! O último grupo é de pessoas que não veem no banho uma utilidade privada ou pública. Até hoje conheci poucas pessoas com esse desprendimento corporal, mas, verdade seja dita, elas não são muito atrativas para o nosso atual padrão civilizatório e higienista. De todo modo, gosto de pensar no quanto o nosso ideal de limpeza é arbitrário e como ele se alterou com o passar dos séculos. Tem dúvida disso? Pense então que na corte elisabetana simplesmente não se tomava banho diário - nem de manhã, nem de noite, nem em hora alguma. O banho só se tornou rotineiro na Europa no século XIX e, ainda assim, a banheira e, mais recentemente, o chuveiro eram considerados artigos bem burgueses.

Se você acha que esse tema é banal demais, engano seu. O banho sempre teve importância, seja religiosa, social ou medicinal. Para os romanos, o banho era um acontecimento público nas termas. Para nós, um acontecimento privado no banheiro. Muita coisa mudou e fomos aos poucos adequando esse hábito de acordo com as nossas necessidades e vontades. Na maioria das vezes, é a tradição familiar que nos faz tomar banho assim ou assado, de manhã ou à noite. Dada a sua importância, o banho pode ser um problema social. Imagine dividir o quarto, a poltrona no ônibus, a fila ou a vida com alguém que não toma banho. A hora do banho também pode ser até mesmo um problema conjugal. Imagine um marido que só toma banho de manhã e sua esposa só toma banho à noite. As horas no banho podem ser também um problema econômico para quem não abre mão do banho quente e longo. O banho pode revelar talentosos cantores... 

Enfim, como se vê, os desdobramentos sobre o tema são numerosos e já é hora do meu banho. Se achou minhas reflexões antropológicas por demais inúteis, só lhe digo uma coisa: vá tomar banho... é um ótimo momento para pensar coisas como essas!