segunda-feira, 15 de abril de 2013

Doutrina Esferográfica

Lembro-me bem de uma vez, quando uns parentes iriam conhecer o "Rancho", um casebre em um sitio do meu falecido avô. O lugar tinha sido recentemente comprado e, mesmo sendo muito simples, tinha virado a sensação de férias da família e agregados. Uns dias antes de irmos para lá, ouvi minha mãe no telefone com a irmã dela:

- É um lugar bem simples. A casa é bem feia. Tem muito mosquito e os colchões são bem velhos. Ah, e não pega TV. Nem rádio. O chuveiro tem água fria e a energia elétrica vive caindo...

Eu, ouvindo aquilo, fiquei pasma. Que crueldade! Como minha mãe tinha a ousadia de apenas falar mal daquele lugar tão legal, no qual eu podia tomar banho de corredeira, andar de barco, pegar girinos na mina e pescar galinha e cágado com grãos de arroz?

Quando ela desligou o telefone, perguntei, meio ofendida, o que ela tinha contra o sítio. Ela deu risada e respondeu:

- Nada! Mas você conhece a sua tia. Falei assim para ela esperar o pior. Quando ela chegar lá e ver que o lugar é simples, mas não é tão ruim assim, ficará surpreesa e esquecerá de reclamar.

E foi o que aconteceu.

Desde então essa tem sido uma das minhas filosofias de vida: diminuir as expectativas -  tanto minhas quanto as dos outros. Ao recomendar um filme ou artista que gamei, tento apenas dizer que é legal. Ou que gostei bastante, no máximo. O mesmo vale para o que ouço dos outros. Se me dizem que tal prato de determinado restaurante é a melhor iguaria do mundo, vou experimentá-lo aguardando me deparar com um misto quente de pão velho.

Quase sempre funciona.

Obviamente, existem situações nas quais a coisa foge de controle. Como na semana passada, por exemplo: minha colega de trabalho chegou na minha sala com as mãos fechadas em concha dizendo que tinha um presente para mim. Foi muito rápido, então a pior coisa que consegui pensar foi em uma bala mastigável de laranja. Que presente poderia ser pior que uma bala com sabor artificial de laranja?  Mas o que ela tinha em mãos era....

... uma tampa de caneta que eu tinha perdido há alguns dias.

Até agora me pergunto se consegui disfarçar a cara de decepção. Ela não fez por mal, eu sei. Talvez se ela compartilhasse da mesma filosofia de vida que eu, teria chegado na minha sala com semblante sério e dizendo que tinha uma péssima notícia. Assim a tampa seria, de fato, um presentaço.

O lado bom é que agora eu tenho um novo parâmetro. Quando me disserem que tem um presente para mim, pensarei automaticamente na bendita tampa de caneta.