quinta-feira, 2 de maio de 2013

Trabalhar com o que se ama é bom, mas pode ser ruim.

Somos diariamente bombardeados por mensagens de auto-ajuda no Facebook. Não costumo postar coisas desse tipo, mas confesso que algumas vezes me beneficio dos textos motivacionais que pulam na minha timeline em algum momento de exaustão no trabalho ou até mesmo de minitristeza. Afinal, segundo os especialistas, todos nós, Dalai Lama inclusive, sofremos algumas minidescargas de tristeza ao longo do dia. Podem durar alguns segundos, minutos, horas, depende da pessoa. Mas queira você ou não, essas minidescargas fazem parte do nosso cotidiano. 

Os posts mais corriqueiros de auto-ajuda que eu vejo por aí dizem respeito a trabalhar com o que você ama. Que dinheiro não é tudo, que o principal na vida é trabalhar com o que você realmente gosta. Trabalhar com o que você não gosta é perda de tempo, é desperdício de energia, é o passaporte para uma vida eternamente infeliz.

Ao mesmo tempo que acho essa mensagem positiva e interessante, a considero muito perigosa e destrutiva para muita gente. Acho que muitas pessoas tendem a se acomodar, criar um mundo paralelo perfeito e se fazer de vítima diante desse quadro. Vejamos o caso típico do adolescente que deseja ganhar dinheiro com a sua banda de rock. Vamos chamá-lo de quê? Pode ser Pedro Ernesto? Muitos desses adolescentes realmente se dedicam, fazem aulas de canto, estudam seus instrumentos, marcam muitos shows, divulgam constantemente as músicas na internet e se baseiam em depoimentos traiçoeiros de medalhões do rock mundial do tipo “nunca desista, monte a sua banda, ensaie bastante, faça um som original que o sucesso com certeza virá”. Mas será que virá mesmo? Basta se esforçar ao máximo? Pra qualquer coisa? Mais importante do que se esforçar a qualquer custo por uma coisa é projetar se essa coisa é de fato viável. E se não for viável, qual seria o Plano B. Mas os livros de auto-ajuda nos ensinam a só olhar para o positivo porque o negativo faz mal. "Não foque os obstáculos, pense apenas no seu objetivo concretizado". E esses adolescentes seguem com o discurso de que “tudo é possível, basta querer”, desafiam os familiares, trancam a faculdade e perdem a oportunidade de estagiar.

Então já quase beirando os 30 anos de idade, Pedro Ernesto se dá conta de que o seu trabalho musical nunca vai fazer sucesso. Ficou 10 anos tocando para meia dúzia de gatos pingados em cidades grandes, do interior, em programas de rádio e até em programas importantes de TV. Fez turnês, pagou jabá, tentou compor músicas parecidas com as que tocavam no rádio. Nada adiantou. Ele até conseguiu uma grana em alguns shows, mas nada que se compare com o pesado investimento mensal que ele injetou na banda todos os meses. O pai e a mãe já não têm mais dinheiro para bancá-lo e ele aceita a derrota. Ele agora sabe que nunca vai ser o novo Cazuza, tampouco o novo Renato Russo, muito menos o novo Chorão.

“A culpa é do povo brasileiro”, Pedro diz. “Eles não têm cultura suficiente para apreciar as minhas músicas. Se eu fosse americano ou europeu, com certeza faria sucesso por lá com o talento que eu tenho”. E ainda acrescenta: “fiz a minha parte, mas o sucesso não veio”.

Pedro Ernesto estudou num ótimo colégio particular. Era um bom aluno. Poderia perfeitamente se dedicar por um ou dois anos e passar num concurso público para nível técnico. Muitas empresas estatais pagam bem, mesmo para quem não tem faculdade. Seria pelo menos um bom começo até que ele termine uma faculdade e tente algo melhor. Mas ele vai dizer que “trabalhar para o governo deve ser muito chato”, “não vou conseguir desenvolver minha capacidade criativa, farei um trabalho burocrático” e, como não poderia faltar, vai dizer que não pode trabalhar com o que não ama. O que resta então para o nosso herói? Tocar com outros artistas como músico contratado? Não, isso ele não quer também. Afinal, ele nasceu para ser a estrela e não para ajudar a brilhar a estrela dos outros. Ser vendedor numa loja de roupas? Trabalhar no caixa de um supermercado? Claro que não. Ele estudou num dos melhores colégios da cidade, nunca poderia realizar trabalhos medíocres de gente do subúrbio.

O pai e a mãe então conseguem um empréstimo para bancar o curso de comunicação numa faculdade privada meia boca. Nem prova ele precisou fazer pra entrar. Foi o único curso que ele aceitou fazer depois de meses de convencimento dos pais.
Já no segundo semestre, ele pensa em largar a faculdade porque o que ele ama mesmo é a música. Ele não quer ser jornalista, não quer trabalhar com produção. “As pessoas que trabalham com produção ganham pouco e trabalham feito escravas, isso não dá pra mim”.

Não foi preciso muito esforço para o Pedro Ernesto se formar na faculdade de comunicação. Afinal, com notas medianas qualquer um passa. O mundo é o culpado. Foi o mundo que perdeu a oportunidade de ver brilhar o novo Renato Russo. Ele poderia estar revolucionando o rock, mas passa o dia no Facebook. Seus maiores trunfos no momento são: conseguiu mais de 50 likes num post que continha uma piada que ele mesmo criou. A sua nova foto de perfil recebeu mais de 30 likes e entre esses likes estava aquela menina que ele está paquerando. E o melhor de tudo, em 2 anos ele conseguiu aumentar o seu número de followers no twitter. De 326 seguidores, ele pulou para 411. Quando conta o seu feito aos amigos, esquece de mencionar que mais da metade desses novos seguidores são spam, pousadas e empresas. Mas tudo bem, isso é só um pequeno detalhe.

Os seus pais estão desesperados, mas Pedro Ernesto nunca esteve tão feliz. Não pôde fazer aquilo que ele realmente amava, mas todos os dias faz pequenas coisas que ama. Ele pode não estar ganhando dinheiro, mas se considera uma pessoa feliz.