quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

O roubo da sétima arte

Clara havia prometido ao filho que naquele dia iriam ao cinema. O pequeno insistia em ver a mais nova animação lançada em 4D. Para que tantos D’s? Ela não sabia direito que filme era, imagina se teria tempo para acompanhar o que o filho gostava. Arrastou o namorado junto, que não fazia questão de ver o filme com o enteado, mas não tinha desculpa para não ir. Decidiram pelo shopping JK Iguatemi por razões de segurança (com esses rolezinhos...). Ingressos comprados, R$73,00, duas inteiras e uma meia-entrada ficaram R$182,50. Pipocas, refrigerantes e algumas guloseimas saíram por R$54,00. Um jantar depois do filme, no próprio shopping R$152,00. Por fim pagaram R$21,00 pelo estacionamento até cinco horas (não gostavam de fazer nada às pressas). Um filminho em família no meio da semana, coisa de R$409,50.

Augusto havia morado um tempo em São Paulo. Sem família e com poucos amigos, contava com o cinema como uma espécie de companhia. Preferia os cinemas de rua, tanto a programação quanto o ambiente, para não dizer os frequentadores. Após terminar os estudos, voltou para sua cidade, um dos 90,9% de municípios brasileiros sem cinema. A única sala virou igreja, o cinema da cidade vizinha fora vendido para uma grande loja varejista. Não era nada fácil continuar vendo um filme por semana sem se render aos filmes dublados que passam na TV repetidas vezes.

Fabiana estudava cinema. Depois de entrar na faculdade o hobby já nem era tão prazeroso, graças à quantidade de filmes que tinha que assistir – nem sempre muito agradáveis. Por prazer ou obrigação, entre todos os filmes que tinha que ver, poucos chegavam às telas de cinema. Filmes chineses, coreanos, nicaraguenses, marroquinos. No começo corria para a locadora onde já tinha feito até amizade com a proprietária, afinal alugava filmes lá há anos. Pouco adiantava. Já fazia tempo que a dona da locadora vinha reclamando da queda de freguesia com as facilidades da TV por assinatura e internet. “Trabalhando com os filmes que todo mundo procura eu mal ganho para manter a locadora, imagine se comprar essas coisas estranhas que você quer, minha filha!”

Marina é fã de cinema nacional. Detesta as pornochanchadas que parecem ter estigmatizado os filmes brasileiros eternamente. Também detesta quando, ao dizer sua preferência, alguém pergunta sobre alguma comédia sem graça da Globo Filmes. Superando essas dificuldades o problema é encontrar os filmes. Mora em uma cidade com cinema, mas distante dos grandes centros com circuito alternativo. Os poucos filmes que chegam a sua cidade são blockbusters importados, que geralmente ela não vê a menor graça. Ela conhece bem as dificuldades de cada etapa quando se trata de fazer cinema no Brasil. Gostaria de fazer o mínimo que lhe diz respeito, ou seja, pagar um ingresso de cinema e garantir uma pequenina contribuição com aquela obra, mas essa não tem sido uma tarefa nada fácil.

Alexandre tem um blog de cinema. Até agora são 167 filmes comentados. Nenhum foi assistido no JK Iguatemi, nem todos foram vistos no cinema e, não vamos revelar o sobrenome do blogueiro para que ele não tenha problemas com a justiça, vários filmes foram baixados na internet, sem o devido pagamento. Ele nunca havia pensado nisso até receber o comentário “Seu blog é bom pena que você incentiva o roubo de filmes pela internet”. Alexandre tem sido uma grande pedra no sapato da indústria cinematográfica.