sexta-feira, 20 de junho de 2014

Diga-me com quem protestas e eu te direi quem és.

Habemus Copa. Querendo ou não, este é um evento que mexe com o mundo. Até os states, que sempre preferiram jogar futebol com as mãos, se renderam e mandaram o maior número de estrangeiros para cá. Somos a pátria de chuteiras e se por um lado isso não é muito legal, por outro está longe de ser nosso pior estereótipo. Com toda essa repercussão, a Copa deve ser acompanhada de perto, por quem gosta e por quem não gosta de futebol, afinal já faz tempo que ela deixou de ser um evento apenas esportivo.

Com o peso político, manifestações são inevitáveis – ao menos onde se tem a pretensão de um estado democrático. Assim, antes do jogo, paulistas tentaram organizar uma manifestação nas ruas. Doce ilusão. Um governador tão democrático que dois dias antes recusou a proposta de catraca livre no metrô, jogando a população contra os grevistas para que apoiasse a demissão dos mesmos, agiu conforme o esperado.

Usando a velha desculpa de conter excessos, a PM atirou duas balas de borracha contra o peito de um jovem que estava parado, desarmado, no meio da rua. Para conter ainda mais o excesso de parar no meio da rua, os policiais (vários) imobilizaram o jovem e, em seguida, jogaram spray de pimenta em seus olhos. 

Em casa, um cidadão classe média vibrava com a ação da polícia. Depois de ser fisgado pelo engodo de que no ano passado as manifestações eram legítimas, mas agora virou bagunça, voltara a entoar o coro de "vagabundo tem mais é que apanhar" – o mesmo que entoava antes das manifestações de julho de 2013.

De repente o nobre cidadão reconhece seu bebê de dezesseis anos, reivindicando direitos em meio à multidão, e não tem dúvidas. Vai às ruas resgatar seu rebento, para delírio dos jornalistas, que ganharam um exemplo prático de como uma família de comercial de margarina deve ser mantida na prática.

Argumentos do filho: "eu quero protestar por uma educação de qualidade". Argumentos do pai: "eu pago sua educação; não é para isso que você foi criado". Em outras palavras poderia ter dito algo como eu pago sua educação para você ser doutrinado a baixar a cabeça diante de injustiças das quais sua situação econômica te livra. Resigne-se."

Resolvido o conflito familiar, foram para casa assistir à abertura. Com os olhos brilhando o pai junta-se ao coro das arquibancadas, gritando como uma forma de apoio psicológico "hey, Dilma, vai tomar no cu!", dando ênfase na última sílaba, pois sabia que precisava mostrar ao filho como é que se faz um protesto com educação. Com a educação de sua escola particular, já que a pública não ensina. Estava protestando em casa, em ordem, entre os seus, não entre a gentinha, os bagunceiros.

Dentro do estádio a torcida festejava. Depois de insultar a presidenta e vaiar a seleção da Croácia (onde já se viu tolerar a existência de adversários), torcia animada até o gol contra de Marcelo. Rapidamente começou a surgir a famosa e vergonhosa “tinha que ser preto”, partindo de brancos tão educados que expressam sem o menor pudor o racismo asqueroso para logo em seguida se indignar ao ser taxada de elite branca.

Para o filósofo Olavo de Carvalho “Quem lança a culpa do xingamento anti-Dilma na "elite branca" deve ser imediatamente processado por incitação ao ódio racial.” Ótimo. Prefiro enfrentar qualquer processo a me juntar ao opressor. Como disse o cartunista Adão Iturrusgarai, os que insultaram Dilma cuspiram no gramado que comeram.

Em ano de Copa e eleição, nunca é demais lembrar que futebol é paixão, irracional e incoerente. Quem ama um time não passa a torcer pelo adversário no meio de uma partida. A ideia televisiva de que ‘determinado time é Brasil na Libertadores’ convence pouco, já que um torcedor que mesmo sem saber porquê detesta a Argentina, prefere ver um time argentino campeão do que torcer pelo time arqui-rival.

O problema é estender essa atitude passional e irracional para a política. Um exemplo prático vem, mais uma vez, da elite branca da abertura da Copa. A sempre retrógrada elite paulista acompanha o estado governado há mais de vinte anos pelo mesmo partido, com problemas de abastecimento de água, problemas de segurança, educação falida, roubos milionários – talvez bilionário – em um transporte público péssimo, mas tende a reeleger o governador. Não querem torcer para o arqui-rival.