domingo, 29 de junho de 2014

domingo

tinha que ser nomeado o dia da preguiça, com direito a decreto, número de lei, emenda na constituição. mesmo por que quase tudo que está nela, na prática não é respeitado e já que nenhum filho de deus teve a brilhante ideia sigo em frente na rotina de quase toda vida.

domingo resume-se em pia e tanque


não lembro de outra visão que não esta, começando pela avó, pela mãe e agora pela rapariga aqui.  


bate, bate e bate as roupas na pedra ensaboa com sabão caseiro, lava uma, duas, três vezes e coloca para estender, enquanto ficam por ali ao redor atrapalhando entre o rio e as pedras com os gritos de "sai daí mininu medonho" ou  "carrinha (na verdade ela queria dizer e ainda hoje tenta - Karlinha) não vá não, deixa de ser medonha minha fia"


a menina medonha crescia e a cena continuava, agora nos cortiços onde lavar roupa no tanque significava socializar com a vizinhança. num quintal com três famílias, pensa no tanto de roupa, de tanque e fofoca, era desde a receitas de cozinha, cansaço, coisas do serviço, maridos brochas, sirigaita se engraçando para o esposo até as putarias de sempre. 



sim todas falam, no menor ajuntamento sai de tudo um pouco do mundo, até sobre política, da urgência de tirar a carteira de trabalho por que está na hora precisa trabalhar ou de não esquecer de tirar o título de eleitor mesmo com ainda 13 anos, e foi tanta lembrança que tirei com exatos 16 anos e a primeira vez que ouvi algo da minha mãe sobre política foi: "só não vai votar no lula hein, por que ele é comunista" sem pestanejar, pois na escola ninguém sabia que diacho era isso "mas o que é comunista?"  resposta: "mas oxi, deixa de converseiro, vai procurar o que fazer vá" 



lembro de cada domingo, cada uma no seu tanque de pedra, até ascensão do famoso "tanquinho" coisa moderna na época. ao todo eram três tanques, sendo que duas famílias tinham o tal do tanquinho e apenas uma não e isso não era problema, pois quando se juntavam emprestava o aparelho moderno pra outra.



praticamente todo domingo era assim, raro o que não era. é impressionante como algumas coisas não se perde, principalmente quando a memória é quase fotográfica, daquelas que se guarda os detalhes sabe.



aprendi a lavar roupa assim ouvindo as conversas alheias, bem como apreendi os truques, por exemplo a separar roupas coloridas das brancas e pretas, esfregar certos lugares das roupas, usar certa quantidade de sabão em pó e pedra, separar as delicadas com detalhes e rendas lavando por último sempre dosando o amaciante para que nada se esvaísse.



a máquina de lavar só veio após anos e mesmo assim o ritual continuou  - separando coloridas das brancas e pretas e o blablá - com diferencial digno de sorrisos pela rapidez com que se batia as roupas e as exclamações de: "como pude demorar tanto para ter uma máquina de lavar roupa meu deus, meus domingos quase sempre com a barriga no tanque".



mas nesta época o nome lula já não era associado ao comunismo (para o bem dele) e vez ou outra era citado por minha mãe ao ver o choro na tevê e soltar umas como: "cabra é trabalhador, mereci uma chance" e agora podia votar no trabalhador do abcd e não demorou para comprar  além da máquina de lavar mega potente um tanquinho moderno, mas a rotina continuava, o domingo sendo usado para lavar, fosse nas máquinas ou em tanques de pedra fosse pra ela ou para outras, continuava lavando roupas no domingo, usando o tempo livre para afazeres domésticos...



justamente pela máquina de lavar agora inclusas na classe média da sociedade brasileira. ela lá e eu aqui ainda hoje pagando aluguel, sem acesso a saúde pública de qualidade, pagando horrores em faculdade e segue a imensa lista.


talvez por que acesso ao consumo não signifique necessariamente ascensão de classe ou vai ver que embora trabalhe feito burro de carga e se esforce muito a propriedade não é coisa de deus e por isso mantenha ela livre de todos males né.


mas hoje temos uma mulher no lugar dele, diga-se tanto ele quanto ela conseguiram se eleger graças ao meu voto e de outros milhares e milhões na mesma situação, mas tenho que confessar que devido o conselho da minha mãe pelo menos durante duas eleições seguidas votei noutros então será que é preciso mais uns anos?



ou não, melhor se convencer do óbvio se quando dizem que as manifestações de junho foram pura ingratidão ou diria falta de se ajoelhar e agradece-los pelo acesso a máquina de lavar?



ou devo considerar os dizeres de militantes fieis da internet de que não é possível reparar tantos anos em 24 horas; melhor que até o momento não se comprovou superfaturamento no tcu, agora resta saber se por quais vias, se (i)legais em notas fiscais quando prestado conta sem o devido acompanhamento de licitação?

ou devo crer que isentar a fifa e agregados de impostos contribuiu para maior arrecadação do estado e com isso nos isenta de pagar a conta daqui meses ou anos?



ou devo acreditar em praticamente tudo que está sendo dito a respeito da copa por vocês sobre o quanto são majestosos e magníficos por realizarem o evento, na verdade dois grandes eventos quando ninguém mais queria?


ou devo acreditar que o ódio não pode vencer? 


ou devo acreditar nestes discursos ridículos?

ou devo concordar já descordando do vai tomar no cu?

ou devo acreditar que fizemos a copa das copas?

ou devo acreditar que tá lindo, os gringos são bem recebidos até o momento ninguém morreu,  conseguimos desmascarar a mídia golpista de sempre, provamos que o país mereci destaque, mereci a confiança de terceiros para eliminação do sub para desenvolvido?

ou preciso de uma vez por todas deixar de acreditar no erro?


passou dos anos, meses, horas de assumir equívocos, mais do que nunca é preciso lavar a roupa suja, ir para tanque sabe minha senhora? 



enquanto isso, vamos fingir que nada está acontecendo, que tudo está mil maravilhas, que existe mesmo este país constantemente divulgado na câmera com restrito foco na paisagem, fechando a imagem no que interessa, no que é importante divulgar em tempos de jogos para transmissão nacional, principalmente pela emissora oficial devido audiência e arrecadação astronômica.



então continuemos no fingimento, até as próximas semanas, acreditando inclusive que até os norte-americanos ressuscitaram o amor pelo futebol. 



neste mundo de mentira, posso seguramente dizer que ao resistir nos posicionamentos e minimamente no boicote ainda que seja no assistir vez ou outra quando tenho vontade algum jogo na emissora não oficial, não estou sozinha.



se não conseguimos arranhar as famílias mais antigas, uma parte da oligarquia, não tenho ilusão que vamos conseguir construir algo, principalmente ao ponto de enfrentar construtoras e grupos que recebem terrenos e partes da cidades como doação do estado. 


enquanto isso, que se acumule a roupa suja até o momento exato de ir para o tanque.