sexta-feira, 13 de junho de 2014

Gauche

Quando era criança, seis ou sete anos, todos os fins de tarde, insistia para a moça que trabalhava em casa me levar até onde ela morava, em um bairro do outro lado da cidade.
Mesma moça essa que, no começo das tardes, fazia eu e minha irmã brincar de "dormir". Quando não era nas cadeiras embaixo da mesa, era numa rede. 
Sem conseguir cair no sono, ficava virado para baixo com os olhos entre as frestas do tramado da rede e a mente longe, muito distante. Quando o corpo era brecado pela inércia, a cabeça disparava mundo afora
Na frente da casa dela, havia obras de casas populares da prefeitura, em um grande terreno no qual brincávamos até cansar.
 Lembro-me do cenário que parecia um imenso campo com centenas de alicerces, que mais tarde viriam ser moradias. Pareciam casinhas do banco imobiliário cortadas ao meio, dispostas regularmente.
Lembro-me também, da sensação de grandeza que aquilo me causava, um campo enorme, sem árvores onde o céu e o horizonte tomavam conta. 
Dizia aos que brincavam comigo:
- Tenho medo do céu. E todos riam.
Medo daquela imensidão. Medo de todos, de repente, nos despregarmos do chão e sair por aí, flutuando no infinito sem mais volta.
Hoje, anos depois, vejo que mais vasto e imenso que o céu, podem ser o nosso coração e nossa mente. Para o bem ou para o mal. Para correr ou para se esconder. Para fugir ou para se enfrentar. Para se enganar ou se chocar.
Mesmo as batalhas mais épicas não são travadas no vasto azul do mar ou no azul cerúleo do firmamento; mas sim dentro de nós.
Caminhar onde os olhos podem ver é sempre mais fácil do que percorrer o terreno fluido e incerto dos horizontes onde apenas o coração pode sentir. A visão, na maioria das vezes, é supérflua e enganadora.
Escolher esse caminho é sempre ser gauche na vida.



"Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração."       
Drumonnd