terça-feira, 1 de julho de 2014

de volta ao circo

pisei num circo pela primeira vez na pré-escola, mas lembro até hoje. a lona era verde escura, o terreno era de barro e pedra e as lâmpadas de bolinhas vermelhas piscavam em volta da palavra bilheteria. o palhaço começou a palhaçada e eu não ri. os contorcionistas de borracha me fascinaram, principalmente quando o homem dobrou a mulher e a colocou dentro de uma mala de viagem. fiquei com dó do anão, que apanhava do palhaço sem graça. quis montar no elefante e fiquei imaginando como os poodles cor-de-rosa faziam tudo sincronizado, desde andar sob duas patas até atravessarem os bambolês. mas as luzes se apagaram e quando acenderam de volta tinham botado uma enorme rede, que alcançava boa parte do circo. era a vez dos trapezistas. primeiro um, depois o outro, depois os dois. que coisa mais maravilhosa. eu não devo ter chorado, mas agora, me imaginando por lá, vejo minha cara de babaca boquiaberto com aqueles movimentos. na saída, eu e mais um bando de criança ficamos tentando ver os artistas, os bichos, o homem e a mulher de borracha, os trapezistas. 

daí pra frente não lembro mais de nada, mas demorou 15 anos pra eu voltar ao circo, desta vez como aluno, há 10 anos. entrei de gaiato num curso profissionalizante, mas na verdade eu só queria entender o que havia por trás do circo. conhecia várias histórias (todas por conta de filmes ou livros) em que o circo passava e levava com ele algumas crianças e pensava por que não me levaram junto quando eu fui pela primeira vez. nas aulas conheci trapezistas, palhaços, mágicos, mas não era a mesma coisa. todos, como eu, tinham seus trabalhos durante o dia e estava ali pra fazer exercícios físicos, para aliviar o estresse, para dar aula nas academias (se não me engano foi nessa época o boom das aulas de circo em academias de musculação) pra sei lá o quê, mas não pela magia do circo. tudo bem que eu também não estava, mas me frustrei um pouco. 

na hora de escolher uma categoria, escolhi o tecido, que era lindo de ver, mas logo desisti por conta instrutor peruano tarado chato e inconveniente, que tirava casquinha de todos na hora do aquecimento e do alongamento. ele adorava fazer massagem e alongar a turma, até o dia que foi denunciado por uma aluna e nunca mais o vi. tentei o trapézio, que também desisti porque ficava horas lá em cima e nunca que me jogava. malabares era mais fácil e se nada mais desse certo, eu pensava, podia fazer no farol e ganhar uns trocos. logo tudo foi ficando complicado e parei. minha vida deu aqueles saltos mortais que acontecem de vez em quando e esqueci do circo, até que descobri uma escola perto de casa, ha um mês. passei em frente um dia, visitei no outro, fiz uma aula teste no outro e lá estou desde então. no teste, a instrutora ficou pasma com minha subida no tecido. fazia 10 anos que não subia e subi feito um macaquinho, segundo ela. daí já fiz o casulo, o cristo, o anjo e estou me preparando pra fazer a secretária. entre nomes de posições estranhas, travas e alongamentos doloridos, penso que nunca devia ter deixado as aulas. não quero me apresentar nunca, mas aquele ambiente tem sido dos mais agradáveis possíveis. 

para além da técnica, do jeito e da força, o que me atrai desta vez são as questões que eu chamo de psicológicas. eu gosto de superar limites, de enfrentar a altura, de estar preso por um pedaço de pano e de me soltar. ficar preso a 4 metros de altura somente pelo pé e ouvir lá debaixo a instrutora dizer "se solta, lucas, você não vai cair!" é um exercício de confiança que preciso aprimorar, assim como me jogar no trapézio do qual desisti. talvez eu desista logo, talvez eu continue ou mude de modalidade, mas o que importa agora é o prazer de me sentir bem num lugar de esforço, treino físico e psíquico, concentração e de alegria.