domingo, 24 de agosto de 2014

Aquele beijo

E é como se fosse um filme ruim, a que eu continuasse a ver porque gosto de filmes ruins. Com a diferença que este não acaba de repente quando a luz acende e sobem os créditos. Não, o problema aqui é que ele acabou mas a vida continua, de um jeito ou de outro. Mesmo que a gente não queira exatamente continuar com a vida que a vida nos dá, mas o que se há de fazer? Aliás, isso foi uma coisa que eu nunca perdoei em você. Sua profunda incapacidade de compreender as regras dos jogos de palavras. Isso e sua paixonite adolescente pelo Tom Cruise. Porra, logo o Tom Cruise? Deus do céu. Tanto ator melhor por aí. Ainda se fosse o Clint Eastwood. Vá lá, dá pra entender toda a mulherzice em torno da figura dele e o cara ainda é um puta ator. Mas o Tom Cruise? Deus do céu.

Tontura. Eu sinto até tontura de pensar no dia em que fui ao motel com outra mulher e lá estava o seu quadro favorito. Parecia que tinha alguém zombando de mim, era só isso que parecia. Como o Show de Truman, mas sem os comerciais de manteiga no meio dos diálogos. Claro, era apenas uma cópia fajuta do quadro, mas naquele momento tudo que eu estava vivendo era uma cópia fajuta do que tínhamos vivido, enquanto tentava em vão capturar o vento e me agarrar às últimas lembranças do suco de limão, do seu dedão do pé e da sua risada de porca. Engraçado perceber que são essas coisas que ficam. 

Então, o quadro. Quando o vi minha reação não foi chorar, nem foi fugir e também não foi brochar. Não, mas eu ri. Ri da ironia daquilo tudo, da maldade inocente completamente despropositada daquilo tudo. Era só uma forma de me agredir e nada mais. Faz tempo e  já senti mais falta, é verdade, mas ainda guardo essa memória comigo. Gostaria de poder esquecê-la. Qual o oposto do Alzheimer? Sofro dessa condição, a incapacidade de esquecer. Hoje não acordo mais de madrugada e fico revivendo arrependimentos, mas sei que é questão de tempo. Isso e de encontrar novamente com seu quadro por aí.