segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Eu odeio política!

"O homem é por natureza um animal político"
(Aristoteles)

Aquela turma de alunos estava junta desde o início dos estudos, ainda na pré-escola, quando amarrar o próprio tênis é um desafio semelhante a uma equação de terceiro grau.

Entre uma brincadeira aqui e outra ali a turminha começava a aprender o conteúdo escolar. Corria nos bastidores da escola que o pequeno Hassan era o mais inteligente. Diziam na sala dos professores que ele já sabia matemática. Matemática! O terror dos alunos mais velhos era brincadeira para Hassan.

O pai, árabe, tinha um armazém onde o menino passava as tardes. Desde que nascera estava habituado a receber dinheiro, calcular o troco, pesar mercadorias, somar, subtrair, multiplicar, dividir, etc. Um prodígio, dizia tia Vera, professora do pré. O problema todo começava quando começavam as letras.

Avesso à escrita, o pequeno gênio decidira não aprender português. Não importava os esforços de todos na escola, a censura dos professores e os castigos dos pais. Irredutível, Hassan crescera um exímio matemático, que mal conseguia encadear as letras para formar uma palavra. O máximo que avançou nessa área foi identificar as letras que usava nas equações.

Thierry, seu amigo, também se destacava na sala por sua inteligência. Filho de pai poeta e mãe redatora, enquanto as crianças folheavam os livros para admirar as figuras, Thierry já lia as histórias para a sala, enquanto os olhos da professora brilhavam com tamanho talento.

O problema chegava com a matemática, e não era apenas um enunciado com incógnitas a serem resolvidas. O garoto escrevia os números por extenso, citava cada um nominalmente, mas se recusava terminantemente a aprender os cálculos mais simples.

Ninguém entendia como um menino tão inteligente e aplicado não conseguia aprender a calcular. Logo o encanto com o prodígio das letras foi minguando até sumir diante da inabilidade para calcular. Escrevendo cada vez melhor, chegou ao ponto de produzir textos fantásticos, que ainda devem estar empilhados em alguma gaveta.

Sem o brilhantismo de um, tão pouco o talento de outro, Fernandes seguia o curso entre os intermediários da sala. Como nunca fora um grande destaque em alguma matéria, passava despercebido ao olhar da professora, que na hora de corrigir as provas sempre custava a lembrar de quem era aquele aluno.

O tempo passou, a turma se formou e logo Fernandes ganhou um cargo de destaque na empresa de seu pai. Ninguém sabia ao certo o que ele fazia, mas pelo fato dele sempre andar de terno por aí, o comentário era que tinha vencido na vida.

Nos encontros de turma fazia questão de sempre deixar claro, com um copo de whisky em riste e ar imponente: “eu detesto política”. Em meio aos sorrisos e apoio da turma não havia espaço para a indignação com que encaravam Hassan e Thierry, mesmo depois da escola.

A turma costumava se reunir a cada dois anos, tudo organizado por Fernandes. Depois da famigerada afirmação sobre a aversão à política sobrava muito tempo para opinar sobre as eleições.

Hassan mostrava gráficos e tabelas desmentindo as informações de Fernandes, mas ninguém entendia muito de matemática, além do mais ele mal sabia ler e escrever. Thierry, especialista em história, ainda que se atrapalhasse com os números das datas, fazia longos discursos para mostrar as incoerências do discurso de Fernandes, mas ninguém lhe dava ouvidos. A maioria achava história uma matéria chata – e pouco importante.

Quanto a Fernandes, não havia indignação por ele se recusar a aprender política, havia até complacência. Seguia criticando alguns candidatos, apoiando outros e cumprindo o papel de formador de opinião da turma. Ninguém lembrava muito bem de como havia sido sua participação na escola, mas era incontestável que ele tinha o melhor emprego entre todos da turma. Isso sem dúvida deveria ser graças às boas escolhas que fez ao longo da vida.

Fernandes segue irredutível em sua aversão. Não quer nem pensar em aprender um pouco sobre política, mas está cada vez mais decidido a concorrer nas próximas eleições. Não pela política, mas para livrar o país disso tudo que está aí. Seus amigos de escola já garantiram o voto no mais bem sucedido da turma.