sábado, 18 de outubro de 2014

Privação dos Sentidos

Talvez você não tenha percebido ou até mesmo “sentido” (perdoem o meu sarcasmo), mas nós já não queremos sentir as coisas como realmente o são. Quem sabe seja por medo ou comodidade, nós seres humanos sempre interrompemos, reprimimos, ocultamos nossas percepções. O meu propósito aqui não é generalizar as coisas (mais do que já estão), porém sinto essa particularidade na maioria das pessoas, pois não estou a cá a falar de superficialidades, mas de coisas que desde sempre vem acompanhando a espécie humana. Já não nos permitimos algumas sensações, emoções e instintos.
Quem nunca notou que já não suportamos o frio? E, ironicamente, o calor também. Caso o contrário os aquecedores e ar condicionados nem existiriam. E o que falar da intolerância a escuridão? Basta olhar o mapa-múndi noturno e verá que nas grandes cidades há mais regiões iluminadas do que escuras. E opostamente as pessoas também não suportam a luz do sol, pois se essa excede um pouco, num dia de calor, nós vamos correndo passar protetor solar colocamos nossos óculos de sol, chapéus ou guarda-sol. E quando o calor intenso da areia da praia nos faz rapidamente colocar o chinelo para nos abstermos daquela sensação? Incrivelmente andar descalço nos parece uma loucura e nos dá grande agonia o simples fato de pensar em fazê-lo, imagine, não abrigar os pés no asfalto quente?! E logo nós, que nascemos descalços e que naturalmente não teríamos sandálias para acolher nossos pés. E o choro que aqui é sinônimo de fraqueza, descontrole e tristeza. A pessoa o engole e sente a amargura de uma lágrima reprimida, mas não se permite deságua-la, pois o outro não suporta saber a vulnerabilidade sem criar uma malícia.
 E o que dizer dos instintos? É tão feio sentir prazer? Quantos orgasmos reprimidos, por vergonha do outro, do que ele irá dizer?! O que irá pensar?! Quantas risadas disfarçadas literalmente ocultadas pelas mãos desesperadas a cobrir aquela inconveniência! Aquela falta de respeito!
Quantos sabores renegados pelo medo de um quilo a mais de um quilo a menos. Quantos amores perdidos, esquecidos! Pelo medo de se envolver, se apaixonar e padecer... Privamos-nos até da felicidade que tanto lutamos para alcança-la através do dinheiro, dos produtos, das viagens e blá blá...
E os odores, no entanto os odores naturais que hoje fedem, que não admitimos e com uma perseverança divina tentamos loucamente disfarça-los tomamos banhos todos os dias e nos utilizamos dos mais variados perfumes, colônias, desodorantes...
Uma dor que seja é rapidamente interrompida com a cartela de remédios, nos medicamos com aspirinas que não fomos nós que fizemos e, pior ainda, às vezes não sabemos nem o que temos.  E não é de hoje que acreditamos mais na mentira, porque não aguentamos a verdade. Mas aí eu me pergunto: Um povo que aguenta tanta coisa não consegue conviver com sua própria humanidade? Pois aguentamos a escola, a faculdade, o trabalho, o ônibus lotado, aguentamos Nagasaki, Hiroshima, aguentamos essas leis, aguentamos as prisões, aguentamos ser escravos por nossa cor de pele, aguentamos o capitalismo, o socialismo, o comunismo, o feudalismo, aguentamos campos de concentração, aguentamos os pesticidas, aguentamos o salário mínimo e o desemprego, aguentamos tantas guerras e não aguentamos a humanidade, não aguentamos algumas vontades e fazemos algumas mentiras virarem absolutas verdades.
 Nós seres humanos, membros dessa sociedade, renegamos a Terra e a usamos como não tivéssemos saído dela e como se não tivéssemos usando nós próprios para uma mentira inventada por nós, o dinheiro.